Mimimi no trabalho? Saiba o que há por trás desse drama

Você já se deparou com situações em que situações no trabalho se parecem muito com a novela das 8? Pode parecer mimimi, mas talvez você esteja vivenciando o triângulo do drama, um modelo social de interações destrutivas identificado pelo psicólogo Stephen Karpman.

Uma gestora chamada Anita quer implementar novas práticas de gestão no seu departamento para dar mais autonomia para o seu time. Ela é cobrada por resultados o tempo todo pelo seu chefe e também por outras áreas da empresa. Joyce é analista de marketing e subordinada de Anita.

Anita se depara com a seguinte situação: o controle que ela antes tinha sobre as pessoas do departamento está desaparecendo com a implementação das novas práticas de gestão no grupo. Anita acredita que as pessoas não estão trabalhando como antes e que não se interessam pelos resultados da empresa, pois há menos cobrança por parte dela.

Joyce, por outro lado, acredita que Anita quer inovar, mas no fundo não quer perder o seu poder. Joyce, acha que a Anita está sabotando a implantação das novas práticas e que tudo é uma farsa.

Assumindo os papéis dramáticos

Anita decide ser mais dura com os seus subordinados. Ela começa a demandar tarefas e proibir algumas ações que considera perigosas para o grupo. Ela pensa: preciso ser mais dura com todos, senão a performance do grupo vai piorar ainda mais.

Joyce ignora as instruções passadas por Anita e começa a fazer o mínimo necessário do seu trabalho. Ela pensa: preciso manter o meu emprego, mas não acredito no que a Anita fala. Não posso fazer nada a respeito se a gestora não quer mudar.

O que acontece?

O conflito se intensifica porque nem Joyce e nem Anita estabelecem uma conversa franca sobre as suas reais necessidades. Ao focar em julgamentos (Anita: As pessoas não trabalham mais como antes; Joyce: A gestora finge querer mudar), os envolvidos criam uma dinâmica dramática em que nada é resolvido.

Ao olhar mais de perto e conversar com elas, podemos perceber que Anita e Joyce são duas pessoas normais, com necessidades e sentimentos:

Anita: Eu quero que todos vejam o bom trabalho que eu faço. Quero ser reconhecida pelas minhas competências. Eu não quero que digam que sou responsável pela ruína desse grupo! (Sentimento: medo)

Joyce: Eu quero ter mais liberdade para fazer o meu trabalho e mostrar o meu potencial. Quero ser uma força criativa e não ser vista como uma máquina que só executa instruções. (Sentimento: frustração)

O Triângulo do Drama

Karpman identificou três papéis destrutivos que as pessoas comumente assumem em conflitos:

  • Vítima: A (falsa) vítima coloca-se como impotente frente à situação. Ela não se sente responsável pelos fatos e prefere não agir, culpando pessoas (ou circunstâncias) pelo que acontece. Frase da vítima: Pobre de mim!
  • Perseguidor: O perseguidor é opressivo, crítico e autoritário com a vítima. Ele diz: é tudo culpa sua! Ao perceber o dano causado, é comum que o perseguidor mude o seu papel para salvador.
  • Salvador: O salvador aparece para tirar a vítima do conflito e resolver o problema dela. Ele às vezes se mostra empático, mas no fundo tem uma intenção não revelada ao ajudar a vítima. É comum estabelecer uma relação de codependência com ela.

Perceba que o drama não acontece em função de características individuais, mas de relações entre papéis que são assumidos pelas pessoas.

Uma vítima não consegue se manter no papel de vítima sem que exista um perseguidor ou salvador. Os papéis se complementam na sua disfunção e não existem de forma independente.

A motivação de cada participante do drama é satisfazer alguma necessidade individual inconsciente (ou consciente e não revelada). O problema é que as estratégias para satisfazer essas necessidades são falha e eles não percebem o dano que o drama gera na situação como um todo.

Ele está mais perto do que você imagina

Ao prestar atenção nos papéis, comecei a perceber uma grande tentação dentro de mim em assumir eles. Tenho uma tendência ao assumir especialmente o papel de vítima ou salvador nas relações pessoais e até no papel de consultor.

Por exemplo, como facilitador do Design Cultural, é gostoso para o meu ego opinar sobre as soluções propostas pelo grupo e dar uma “resposta”. Mas isso pode prejudicar o trabalho no longo prazo, afinal o meu papel real é promover a emancipação do grupo em relação a sua produção cultural. Dar a resposta pode gerar dependência, e isso não é o que eu quero.


Se perguntando como sair dessa cilada? Falaremos no próximo post sobre alternativas ao triângulo do drama: o diálogo e a dinâmica do empoderamento.

Por | 2017-06-22T09:03:00+00:00 maio 31, 2017|Integralidade|2 Comentários

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2 Comentários

  1. Fabio 9 de junho de 2017 at 00:26 - Reply

    Conheci esse jogo psicológico na Análise Transacional, por um tempo estudei bastante, É muito interessante os jogos de poder, mas fazia tempo que não lia sobre, acho legal trazer a tona e integrar com os novos conceitos

  2. […] post “Mimimi no trabalho: saiba o que há por trás desse drama” falamos sobre como conflitos no trabalho podem se intensificar ao assumirmos os papéis do […]

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