Como as organizações limitam a criatividade?

Não se esqueça, por um minuto sequer, que ao falarmos de organizações estamos falando de pessoas, de indivíduos que atuam coletivamente na busca de um objetivo comum. Sem esse esforço humano, não há iniciativa que vingue.

Uma das ferramentas utilizadas nessa jornada individual e coletiva é a criatividade, uma capacidade intrínseca e valorizada universalmente que permite ao ser humano construir, transformar, inovar e evoluir.

Acontece que a maioria das organizações, apesar de depender dessa capacidade para sobreviver e prosperar, cultiva um ambiente hostil a ela. Poder centralizado e liderança sem empatia, engessamento do sistema produtivo e comunicativo e rigidez nos processos são traços que limitam e abafam o potencial criativo e inovador dos colaboradores, independentemente de seu nível hierárquico.   

É um paradoxo que precisa ser superado, especialmente se pensarmos que, hoje, o capital humano é uma vantagem competitiva crucial em um mercado volátil e imprevisível.   

De onde surge esse paradoxo e como é possível superá-lo? É o que você verá neste post, que foi escrito em parceria com a Manifesto 55!  

Crise institucional de criatividade?

Se você acompanha os debates nacionais e internacionais sobre Educação, já deve ter percebido que há muitas pessoas questionando a escola, seu propósito e eficácia.

E, veja bem, não estamos falando apenas dos últimos anos. Mal o século 20 havia começado quando proeminentes pedagogos, filósofos e educadores passaram a questionar o sistema de ensino tradicional e sua capacidade de educar indivíduos pensantes, curiosos, dispostos a questionar e a revolucionar.     

Avanços foram e continuam sendo feitos, mas em geral o sistema de educação permanece inalterado. E o que ele ensina para as crianças ao redor do globo? De que forma ele as educa? Primeiramente, ele as ensina a memorizar um punhado de conceitos prontos para passar de ano. Depois, a repetir esses conceitos.

Segundo o educador britânico Sir Ken Robinson, fazendo isso as escolas vão, pouco a pouco, sufocando o ímpeto criativo e criador que habita em cada criança. A música interior que as move vai sendo silenciada, como bem ilustrou a animação Alike.

Para evitar maniqueísmos e visões radicais, nos vemos obrigados a fazer, aqui, a seguinte ressalva: não estamos jogando a responsabilidade por essa degradação nos ombros dos professores, pois eles mesmos foram educados segundo esse sistema desumanizador.

A falta de estímulo nas organizações

Depois de passar anos e anos refém desse sistema de ensino e finalmente conquistar um diploma (seja do Ensino Médio, seja do Superior), as pessoas costumam iniciar sua vida profissional. A maioria logo se depara com uma realidade até menos estimulante do que a escolar.

Tarefas mecânicas e sem um propósito claro, burocracia paralisante, foco na quantidade e não na qualidade, competitividade, pressão por resultados e medidas contingenciais em vez de investimento em inovação. Essa dinâmica nos leva a crer que não há outro jeito de proceder, que “é assim que as coisas são”.

Aos poucos, vamos nos tornando another brick in the wall!

O resultado? Falta de engajamento, de energia, de empatia, de ânimo para fazer diferente e, consequentemente, supressão do potencial criativo, aquele que está lá adormecido desde a infância, desesperado por uma oportunidade para brotar e transformar o mundo.

É claro que esse fenômeno varia em intensidade de empresa para empresa. Nenhum gestor minimamente consciente vai declarar ser contra a criatividade, por exemplo. O problema é que a própria estrutura, a própria lógica de funcionamento das organizações (ou da maioria delas) impede, desestimula, limita o potencial criativo, exatamente como a escola.

Isso impacta — negativamente, é claro — a organização, seus produtos, processos e até sua comunicação com o público-alvo. Sem o ingrediente mágico da criatividade, todo o trabalho se torna um vai e vem mecânico, despido de qualquer significado mais profundo.

Mas como vencer essa barreira? Como exercitar seu potencial criativo e influenciar outros a fazê-lo?

A luz no fim do túnel

Bem, para quem está entrando no mercado de trabalho agora, sugerimos que procure empresas mais flexíveis em suas regras, cuja liderança seja mais horizontal, pois isso influencia a autonomia individual e o espaço para exercer a criatividade. Contudo, sabemos que nem tudo são flores, afinal de contas, na atual situação econômica, a maioria não tem escolha senão aceitar a primeira oferta que aparece.

Algumas empresas estão preocupadas em oferecer aos colaboradores estímulos para que eles exercitem sua criatividade e contribuam ativamente na tomada de decisão. Elas costumam praticar uma liderança mais humana, descentralizada e inclusiva; estímulos necessários para que os colaboradores entrem em contato com seu “eu criativo” e o desenvolvam.

No entanto, muitas fazem isso apenas superficialmente. Você já deve ter ouvido falar em organizações que oferecem salas de jogos, espaços abertos e promovem happy hours, mas que mantêm uma estrutura rígida e controladora, com pouca ou nenhuma real concessão aos colaboradores.

O fato é que criar um ambiente fértil para que a criatividade aflore demanda um esforço coletivo e uma mudança de mentalidade. A empresa precisa ampliar o escopo de seus objetivos estratégicos e visar, além do lucro, o desenvolvimento do potencial humano.

O caminho para a criação de melhores soluções e melhores produtos sempre passa pela atuação conjunta, pelo encontro de várias mentes pensantes e diferentes perspectivas.

Um jeito certeiro de manter a chama da criatividade acesa é exercitar a curiosidade e questionar. Não tome como certo e pronto tudo que está ao seu redor, e não tenha receio de não saber as respostas. Essa lacuna entre um gargalo e sua solução, entre o “jeito que as coisas são” e o “jeito como elas podem ser”, é o que desperta o engajamento e a inventividade nas pessoas.

Valorize o fato de que você não sabe tudo, e esteja sempre disposto a aprender, a pesquisar e a dialogar com diferentes entendimentos. Caso venha a liderar uma equipe, aja de forma a empoderar os participantes, a garantir que eles também exerçam sua curiosidade e que estejam alinhados quanto aos objetivos a serem atingidos. Dê espaço para que eles expressem suas certezas, mas principalmente suas dúvidas.

Tenha em mente que se manter curioso e engajado, valorizar a troca de ideias e a jornada de aprendizado pessoal e coletiva são as únicas maneiras de superar o abafamento da criatividade no ambiente organizacional!

Agora, convidamos você a deixar um comentário neste post e a contar para a gente como você lida com a falta de estímulo à criatividade em seu trabalho e o que faz para manter a chama acesa!

Por |2018-04-17T09:32:39+00:00abril 17, 2018|Integralidade|2 Comentários

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2 Comments

  1. Eduardo Simoes de Araujo 11 de junho de 2018 at 13:57 - Reply

    Desde do propósito ou missão organizacional, temos um casaca de desdobramentos estratégicos, caracterizados em cada nível por seus (Porque, O que, Como). Nosso nível motivação, está diretamente relacionado ao motivo ou porque estamos fazendo o que fazemos e nossa criatividade é aflorada na busca por solucionar esse questionamento em que estamos conectados e valorizamos.

    Em uma aplicação desse paragrafo na dinâmica organizacional, o sistema de chefia muitas vezes omite o “porque” e traz o “o que e como” já descritos a partir de sua perspectiva, descrição essa que sempre estará limitada mesmo pela melhor comunicação. Sendo final o trabalho julgado por uma expectativa que nunca estará intrínseca sob quem realiza essa atividade.

    Precisamos cultivar um ambiente em que os porquês estão claros para todos e que exista confiança e comprometimento para se chegar as melhores soluções, nesse tipo de ambiente proporcionamos um maior potencial criativo em todos os colaboradores!

  2. Hugo Magalhães Nunes 20 de junho de 2018 at 18:47 - Reply

    – Fiz sempre assim e nunca deu errado.
    – Em time que está ganhando não se mexe.
    – Faz quem põe a mão na massa.
    – Quem está de fora nāo da palpite ERRADO.

    Atė mesmo o trabalho horizontal é reprimido pelas limitações individuais de seus integrantes e pela cultura própria da organização. Transformar o trabalho significa acima de tudo abrir mão do orgulho.
    Tentar o novo é aceitar suas inumeras frustrações sem criminalizalas. O estudo de viabilidade técnica, econômica e de prazos; pode auxiliar no abandono ou manutenção da forma de execução dos serviços.

    Embora a hierarquia seja pensada do presidente ao trabalhador braçal, para o produto essa linha de poder é inversa. Ė um paradoxo que possui quebra com a decisão de implementação de mudanças a partir da direção da empresa. Assim como foi o 5S, e outras culturas implementadas. A decisão por uma cultura mais horizontal passa por uma decisão estritamente vertical.

    A liberdade em criar modelos alternativos deve alimentar a corporação com dados, sendo estes ūteis em futuras tomadas de decisões, mesmo quando esses modelos não forem viáveis para a implementação que o gerou.

    Os estudos de viabilidade parecem sempre frustrantes, uma vez que eliminam alternativas que a princípio necessitariam de projetos completos para evidenciar e comparar seus custos e prazos. Todavia, pode-se aproveitar a experiência da organização em partes similares e extrapolar para a mensuração do novo trabalho.

    A concepção do genoino, pode figurar em qualquer ambiente, mas sua maturação ė fruto da liberdade de tentativas.

    Criar é permitisse errar,
    Criar ė voltar a ser menino.
    Ė querer andar.

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