O livro Reinventando as Organizações, publicado em 2014, mostrou-se rapidamente um sucesso de vendas e todo um movimento se criou em torno da figura carismática do autor do livro, Frederic Laloux.

O autor fez uma compilação maravilhosa de doze organizações e uma análise de cada uma delas buscando práticas, rituais e valores que fossem compatíveis com o modelo de Laloux que consiste de três pilares: autogestão, integralidade e propósito evolutivo.

Ao apresentar de forma clara e sedutora a ideia de equipes paralelas, redes de acordos individuais e círculos aninhados eu acredito que o Laloux construiu um argumento bastante convicente para convidar as pesssoas e organizações a explorarem novos modelos focados em autogestão.

De uma certa forma, ao criticar modelos organizacionais, este livro contribui para a transformação radical das organizações ao ajudar as pessoas a tomarem consciência das contradições presentes nas organizações dos dias de hoje.

Peço a você, meu caro leitor e leitora, especialmente se você for muito fã desse trabalho, que não pense que estou simplesmente jogando o livro no lixo porque estou tecendo algumas críticas ao trabalho.

Pelo contrário, eu vejo valor neste material e é justamente por isso que me dei o trabalho de escrever uma crítica.

O novelo de lã

Laloux vai pegar emprestado um modelo que foi bastante popularizado por Ken Wilber para descrever toda a sua narrativa de “organizações do próximo estágio de consciência”.

Este modelo foi chamado pelo Wilber de Spiral Dynamics Integral (SDi) e desenvolvido inicialmente em parceria com Don Beck.

Don Beck por sua vez já havia popularizado uma outra versão do modelo com seu parceiro de pesquisa Christopher Cowan apenas como Spiral Dynamics. Cowan não curtiu muito o caminho que Beck e Wilber estavam tomando e decidiu não participar do processo. Hoje há uma grande separação entre a comunidade de praticantes que se baseia no modelo do Wilber e a comunidade que se baseia no modelo de Beck e Cowan.

Perspectivas sobre o que é possível conhecer

Antes de falar sobre as teorias desses caras, quero fazer uma pequena reflexão sobre os diferentes posicionamentos da ciência sobre o que é conhecimento e qual é a relação entre o sujeito que observa o seu meio e o objeto observado. Isto é, a relação entre pesquisador e objeto de pesquisa.

Como a proposta do Laloux é focada em uma análise fundamentada pela psicologia desenvolvimentista, quero trazer uma pequena ressalva.

Há uma grande discussão sobre a validade do método científico quando aplicado ao estudo de fenômenos psíquicos. Até hoje não existe consenso se as diversas ramificações da psicologia podem de fato ser consideradas como ciência, especialmente em função do princípio da falseabilidade proposto por Karl Popper. Um dos discursos mais famosos dentro dessa grande discussão é a proposta de Wilhelm Dilthey para que a psicologia seja entendida como uma ciência distinta das ciências naturais com seus próprios métodos. Veja aqui uma tese que fala um pouco sobre isso.

Sendo assim, com uma abordagem empírica, cada pesquisador no campo psicosocial vai estabelecer os seus métodos para interagir com os fenômenos ou vai utilizar métodos propostos por outros autores.

Ter consciência de que essa discussão existe é fundamental porque, como vou demonstrar, Laloux insiste na fundamentação científica do seu modelo que descreve como a humanidade evoluiu e se organizou ao longo do tempo.

Como fazemos sentido do mundo?

Cada pesquisador tem uma resposta diferente para esta pergunta.

Os realistas vão dizer que a realidade existe de forma independente do observador, é algo pré-concebido. O mundo está lá esperando para ser descoberto e nós podemos conhecer a realidade de forma objetiva, isto é, a subjetividade do observador não atrapalha em nada.

Os relativistas acham que a experiência existe apenas em nossas mentes, não na realidade. Qualquer explicação para a realidade é uma projeção do próprio observador.

Os idealistas evitam os extremos dos dois anteriores. Eles acreditam que a forma como experimentamos o mundo é de fato condicionada pela nossa mente, mas isso não significa que todos os nossos sentidos sejam relativos. De alguma forma os nossos sentidos devem estar conectados com a realidade, mesmo que esta esteja sujeita às categorias “a priori” das nossas mentes.

A partir do Idealismo Kantiano, os construtivistas entendem que o sujeito interage com a realidade mas não acreditam que isso aconteça de uma forma passiva. Para os construtivistas o sujeito participa ativamente na construção da realidade a partir de suas projeções e categorias do pensamento.

Naturalmente, essas não são as únicas perspectivas. Cada um desses movimentos acima se desdobram em inúmeras outras abordagens. Escolhi esses quatro movimentos filosóficos e epistemológicos porque são os ramos mais influentes que julguei como relevantes para esta discussão.

O Roy Bhaskar vai propor um realismo crítico, por exemplo. O relativismo também possui diversas variações.

Ontologia e Epistemologia

Para manter a crítica didática, talvez seja útil oferecer uma definição de dois termos que vou utilizar bastante:

  • Ontologia: é o campo de estudo daquilo que é, virá a ser e que existe. É um ramo filosófico da metafísica. Perspectivas ontológicas geralmente carregam a premissa de que os nossos conceitos descrevem a realidade como ela é. Por exemplo: Pense na taxonomia botânica onde organizamos plantas em espécies, classes, famílias, etc. A taxonomia existe na natureza ou é apenas uma abstração conceitual que nos ajuda a descrever padrões a partir da linguagem? Um discurso ontológico radical diria que a taxonomia de fato existe na natureza e a descreve exatamente como ela é (realismo ingênuo). Um discurso menos fervoroso diria que talvez não seja exatamente assim, mas é algo muito próximo disso (realismo moderado) e talvez seja possível construir um modelo muito próximo disso. Um discurso leve seria o de que a taxonomia existe na natureza, mas nunca vamos construir um modelo perfeito (realismo crítico).
  • Epistemologia: é o estudo do que é possível conhecer e do próprio conhecimento. Considerando o exemplo acima, a taxonomia seria um recurso epistemológico que nos ajuda a compreender os padrões da natureza, sabendo que o modelo é apenas uma abstração conceitual e não a realidade como ela é. Ou seja, a taxonomia não existe na natureza, é apenas um construto intelectual.

O enigma

Ao meu ver, há uma incógnita em relação a todo o movimento da Spiral Dynamics. Os autores não deixam claro qual é a inclinação epistemológica deles e cabe ao leitor interpretar como quiser. Eu inclusive já perguntei nos grupos das redes sociais e parece ser um mistério.

Me deu bastante trabalho para entender, mas parece que o Ken Wilber tem sua própria epistemologia que ele chama de pós-metafísica integral.

Este artigo (em inglês) tenta mostrar as inconsistências dessa proposta. Pasme, o autor do artigo é wilberiano.

Não está claro se o Wilber é um realista ou se ele é relativista. O autor do artigo acima parece estar confuso com isso também. Wilber parece se posicionar como um relativista absoluto, mas todo o discurso dele parece ser altamente metafísico, isto é, realista. Não sei. Talvez algum leitor possa me elucidar sobre isso.

Quanto ao Laloux, vejo muitos indícios de uma confiança na perspectiva objetiva da psicologia desenvolvimentista para descrever todo o processo de evolução da humanidade e das organizações. Essa confiança me transmite um posicionamento ontológico, isto é, me parece que ele acha que o modelo realmente descreve a realidade como ela é. Vou partilhar alguns trechos no decorrer deste artigo que me parecem ser evidências disso. No entanto, confesso que também não sei. Só ele poderia dizer.

Atenção: Também tenho meus próprios viéses

Antes de continuar quero lembrar os leitores das minhas próprias limitações e preferências.

Em vários momentos vou criticar o posicionamento de Laloux como sendo de um realismo ingênuo, que acredita ser possível compreender fenômenos sociais de forma objetiva e estabelecer leis atemporais para os estágios de evolução da consciência de toda a humanidade.

Pessoalmente, a minha inclinação epistemológica, a forma como olho para fenômenos sociais, transita entre o construtivismo social e idealismo transcendental.

O relativismo absoluto ou realismo ingênuo são perspectivas que vão numa direção oposta à forma como olho para o mundo.

Não quero dizer que você tem que pensar como eu penso sobre isso. É a minha perspectiva. Por isso, quando “acuso” o Laloux de fazer metafísica, isso pode ser um problema pra mim, mas não necessariamente um problema pra você ou pra ele. E tá tudo bem.

Sociologicamente, eu tendo a olhar pro mundo pelas lentes do pós-estruturalismo (especialmente Foucault), do interacionismo simbólico de Mead e da sociologia de transformação radical de Marx e Habermas. Também me interesso pelo trabalho de autores como Buckley, Giddens e Bordieu que tentaram integrar diferentes perspectivas sociológicas. (Um monte de homem branco, eu sei, estou tentando mudar isso e aceito sugestões.)

Também levo comigo um olhar da piscologia analítica, da cibernética de segunda ordem e de critical systems thinking.

E claro, também tenho um pézinho no anarquismo, especialmente influenciado pelas ideias de Bakunin e Kropotkin.

Essa crítica é completamente enviesada pela minha própria visão de mundo, minhas referências e não representa nem de longe a verdade absoluta ou última palavra sobre o assunto.

Pelo contrário, eu espero que essa crítica estimule reflexões frutíferas sobre tudo o que está sendo discutido aqui.

Spiral Dynamics

É importante ressaltar que todo esse trabalho da Spiral Dynamics foi desenvolvido com base na teoria da emergência cíclica de Clare W. Graves. Graves desenvolveu sua teoria com base em diversos experimentos empíricos entre os anos 60 e 70.

Graves estava se aventurando no campo da psicologia desenvolvimentista, isto é, estava buscando compreender como o ser humano se desenvolve e alcança a maturidade dentro da sociedade. Don Beck se aproximou de Graves com um profundo interesse na sua pesquisa e, mais tarde, o Cowan também entrou no barco.

O trabalho de Graves foi então a grande inspiração de Cowan e Beck para desenvolver a Spiral Dynamics. É importante notar três coisas aqui:

  • A pesquisa do Graves recebeu uma série de críticas que nunca foram esclarecidas pelos pesquisadores.
  • Spiral Dynamics (SD) como proposto por Cowan e Beck não é exatamente a mesma coisa que foi proposta por Graves. Eles adicionaram uma outra camada baseada na memética, uma linha de pesquisa inspirada no conceito de “meme” proposto por Richard Dawkings no seu livro “O Gene Egoísta”. Cá entre nós, a memética é nada mais que um determinismo biológico aplicado a sistemas sociais. E o conceito de meme é apenas uma distorção da ideia de signo da semiótica.
  • SD também possui diversas críticas somadas às críticas que já existiam sobre o modelo de Graves.

Graves chamava os “estágios de consciência” do Laloux de “Waves of Existence”, que em português seria algo como “ondas da existência”.

Cowan e Beck chamam esses “estágios” de vMEMEs. Um vMEME é, ao mesmo tempo, uma estrutura psicológica, um sistema de valores e um modo de adaptação que pode se expressar de várias maneiras diferentes, de visões de mundo a estilos de roupas e formas governamentais (uma definição bem melhor que estágios de consciência, que ainda parece propor uma ontologia).

Patrick Vermeren, um consultor Belga e co-fundador do Evidence Based HRM, defende que o artigo de Graves de 1970 (sobre os “Levels of Existence“) é o único artigo que pode ser encontrado na base de dados da American Psychological Association sobre esse corpo de conhecimento, sem referências de outros pesquisadores. Portanto, ninguém assumiu a tarefa de testar ou validar essas ideias. Ou, pelo menos, ninguém teve o rigor de escrever sobre isso no meio acadêmico. “As ideias de Graves e Wilber não foram adotadas por biólogos ou psicólogos sérios.” – diz ele.

Pessoalmente, não acho que só o conhecimento científico seja válido, respeito o conhecimento ancestral e outras formas de saberes, mas quando se trata de questões socioculturais tendo a me embasar em pesquisas acadêmicas.

Ken Wilber

Por fim temos o trabalho de Ken Wilber que, aparentemente, possui pouco suporte de outros acadêmicos.

Ele é um autor, às vezes chamado de filósofo, que parece ter uma inclinação pela psicologia transpessoal, embora mesmo dentro deste campo ele também não se dá muito bem com a galera.

Os estudos dele envolvem muitas áreas de pesquisa diferentes. Ele escreve sobre questões sociais, sexualidade, história, antropologia, mitologia, misticismo, espiritualidade e mais uma infinidade de temas.

Talvez uma forma de descrevê-lo seria como um autor transdisciplinar que propõe um meta-modelo que explica toda a natureza do ser humano, do desenvolvimento da sociedade, das relações, das organizações, da economia, das guerras, enfim, tudo.

De fato, ele tem literalmente uma “teoria de tudo”, que por si só já diz muito sobre as suas pretensões megalomaníacas em tentar decifrar a natureza do universo.

Diria que ele é basicamente um produtor de material intelectual para pessoas como eu, que são cheias de privilégios e podem ficar em uma eterna masturbação intelectual, lendo milhares de páginas, achando que descobriram o segredo do universo.

Para fazer essa crítica, tive que ler alguns livros do Wilber. Entre eles estão “A Theory of Everything”, “Integral Life Practice”, “Integral Theory” e “A Brief History of Everything”. Ele publicou mais de 40 livros, então certamente não posso dizer que tenho uma visão completa do trabalho dele. Estou aberto para uma conversa com pessoas que possuem uma bagagem maior caso alguém se interesse.

Seu modelo AQAL é sedutor, a narrativa dele é descolada e ao mesmo tempo carregada de neologismos que fazem com que eu me sinta mais inteligente e ele realmente parece ter investido muito tempo estudando muita coisa.

Se você quiser compreender melhor todo o universo wilberiano visite o site https://integralworld.net/ (em inglês) e divirta-se com a infinidade de conteúdos. Este site é mantido por Frank Visser, um psicólogo integralista, que faz grandes esforços para elaborar críticas e integrar diferentes perspectivas.

Neste artigo, Visser vai falar em grande detalhe sobre a relação problemática de Wilber com a ciência e como ele possui uma visão distorcida da teoria da evolução. Note que a teoria da evolução é um ponto central de toda a narrativa do Wilber.

Todos esses pontos que estou levantando aqui são relevantes para embasar a minha crítica ao livro Reinventando Organizações que é fortemente inspirado nas ideias deste autor.

Com isso, não tenho a menor intenção de condenar o trabalho de pessoas que divulgam a teoria integral e suas inúmeras práticas. Creio que qualquer pesquisador sério tem ciência das controvérsias do Wilber. Não é nenhuma novidade. Frank Wisser é um desses pesquisadores sérios que possui inúmeras críticas ao fundador do movimento.

Sobre os estágios de consciência

Voltando para o livro do Laloux, vou começar a minha crítica sobre a sua proposta de estágios de consciência.

Laloux apresenta um elegante modelo que descreve como a humanidade foi se desenvolvendo nos últimos 100.000 anos até hoje.

Ele faz uma análise que busca compreender como as pessoas começaram a colaborar e a se organizar e, com a ajuda do modelo SDi de Wilber, começa a categorizar as características desses vários tipos de organização no que ele chama de “estágios de evolução da consciência”.

O engraçado é que o Laloux não cita nenhum historiador ou antropólogo em momento algum, nem mesmo na sua bibliografia no fim do livro.

A aparente certeza ontológica de Laloux

Todas as fontes citadas estão relacionadas apenas com a psicologia desenvolvimentista. Não há uma menção sequer sobre qualquer autor(a) da antropologia ou sociologia. Segue um trecho do livro:

“Tais questões foram investigadas de todos os ângulos possíveis. Abraham Maslow notoriamente investigou como as necessidades humanas evoluem ao longo da jornada humana, das necessidades fisiológicas mais básicas até necessidades de autorrealização. Outros pesquisaram o desenvolvimento através das lentes das cosmovisões (Gebser, entre outros), capacidades cognitivas (Piaget), valores (Graves), desenvolvimento moral (Kohlberg, Gilligan), identidade pessoal (Loevinger), espiritualidade (Fowler), liderança (Cook-Greuter, Kegan, Torbert), e por aí vai.” (pg 11)

E o pior, ele pega o trabalho desses pesquisadores majoritariamente desenvolvimentistas, focados nos indivíduos, e extrapola isso para o desenvolvimento da sociedade como um todo. Ou seja, ele está fazendo uma indução de que se o ser humano se desenvolve em estágios, então toda a sociedade também se desenvolve da mesma forma.

Tudo indica que o Laloux realmente acredita que este modelo descreve a realidade de uma forma acurada, isto é, ele utiliza o modelo como uma perspectiva ontológica e não epistemológica. Este trecho parece confirmar isso:

“Em suas investigações, eles (os pesquisadores) encontraram consistentemente a ideia de que a humanidade evoluiu em etapas. Nós não somos como árvores que crescem continuamente. Nós evoluímos a partir de transformações ocasionais, como uma lagarta que se torna uma borboleta ou um girino que se torna um sapo. Nosso conhecimento sobre os estágios do desenvolvimento humano é agora extremamente robusto. Dois pensadores em particular – Ken Wilber e Jenny Wade – fizeram um trabalho extraordinário em comparar e contrastar todos os principais modelos, e descobriram uma forte convergência.” (pg 12)

E ainda:

” acadêmicos como Jane Loevinger, Susanne Cook-Greuter, Bill Torbert e Robert Kegan testaram essa teoria dos estágios com milhares e milhares de pessoas em diferentes culturas, incluindo contextos corporativos e organizacionais, entre outros.” (pg 12)

Ou seja, ele realmente quer deixar claro que a proposta dele tem embasamento científico, e que, portanto, é real, gente!

Ele só usa fontes de autores que, embora tenham feito pesquisas empíricas com indivíduos e organizações, nunca afirmaram nada do que ele está falando sobre o desenvolvimento da sociedade como um todo.

A Linearidade do processo evolutivo

O modelo Laloux-Wilber também é extremamente linear no que diz respeito à evolução dos processos de organização da humanidade.

Ele mesmo diz que:

” para cada novo estágio de consciência humana que surge também nasce uma nova habilidade de colaborar, trazendo com isso um novo modelo organizacional.”

O problema com isso é que ele parece ignorar uma série de estudos antropológicos que trazem nova luz ao comportamento das tribos de caçadores e coletores, a complexidade dessas sociedades antigas e muitas outras nuances.

De fato, Laloux parece estar perfeitamente alinhado com uma perspectiva antropológica branca, eurocentrista que julga os povos ancestrais como “primitivos” que não conseguem lidar com questões “mais complexas”.

A linha do tempo proposta por Laloux não existe em nenhum outro lugar além do trabalho do Wilber. Ninguém mais propõe algo nem sequer parecido.

Existem, no entanto, perspectivas diferentes. Bem diferentes.

Por exemplo, o antropólogo Hugh Brody argumentou de forma persuasiva que os povos que classificamos como “caçadores-coletores” (em si um termo questionável) tendem a se organizar de uma maneira que ele caracteriza como “individualismo igualitário”.

Veja um trecho do livro dele:

Outra característica do modo de vida caçador-coletor é um profundo respeito pelas decisões individuais. Existem especialistas em vez de líderes, homens ou mulheres cujas habilidades são reverenciadas; mas as decisões sobre seguir sua liderança ou seguir seus conselhos são questões de escolha individual. Um líder de caça não instrui os outros a seguir ou tomar qualquer direção em particular. O perito dá a conhecer a sua decisão; outros então tomam suas decisões, seguindo ou não como cada um prefere. As normas sociais e éticas são poderosas, mas são reforçadas por um mínimo de instrução ou retribuição organizada.

Caramba! Isso é bem parecido com algumas premissas do que eu entendo por autogestão. E o Laloux tá dizendo que isso é algo que só vai se manifestar 10 mil anos depois SE conseguirmos seguir para o “próximo estágio evolutivo Teal”. Claro que também é só uma conjectura do autor, uma vez que é impossível saber como de fato as relações desses povos se dava porque eles não deixaram relatos escritos.

O livro “People without government”, do antropólogo Harold Barclay, possui exemplos de colaboração entre caçadores-coletores que vão muito além de meros bandos dispersos.

Esta tese demonstra a complexidade das interações entre caçadores-coletores sob a luz da ciência das redes.

O jornalista científico Matt Ridley também parece corroborar a ideia de que a complexidade da colaboração entre humanos vai muito além do discurso dominante imperialista. Veja isso com mais detalhes em um dos livros dele.

O antropólogo Christopher Boehm também parece corroborar a hipótese de que os caçadores coletores se organizavam de forma bastante igualitária. Ele suspeita que esses povos já se organizavam assim há 45 mil anos atrás. 😮

A confusão com o darwinismo

Laloux insiste na ideia de um propósito evolutivo e confere uma noção teleológica às organizações.

Ele utiliza o termo “evolutivo” em vários momentos e fala de uma proposta evolucionária, do caminho evolutivo da humanidade em direção aos próximos estágios da consciência.

De fato, o modelo proposto por Laloux se confunde com várias linhas da sociologia e antropologia que foram abandonadas e fortemente criticadas no meio das ciências sociais.

E o pior é que essa analogia evolutiva acaba se confundindo com um tipo suave de darwinismo social (utilizar princípios da teoria evolutiva darwiniana para descrever fenômenos sociais como se eles estivessem sujeitos a leis atemporais que justificam o progresso). O engraçado é que no prefácio do livro o próprio Wilber critica brevemente o darwinismo social.

O modelo de Laloux é obviamente uma adaptação da proposta SDi do Ken Wilber. O próprio Frank Visser, criador do site IntegralWorld, fala que o Wilber se apega a um modelo desatualizado sobre a evolução e o caracteriza como um “místico evolutivo”. Falou o cara que criou um site para fãs do movimento integral, ok?

Eis aqui a fala do Frank Visser sobre o Laloux ao utilizar termos relacionados com a teoria evolucionista:

É altamente irônico que um autor que entende tão pouco de teoria evolucionária use o termo “evolucionário” em todos os momentos. Isso não desqualifica imediatamente seus escritos sobre gestão e questões socioculturais, mas o torna pelo menos suspeito em círculos mais seculares e céticos.

O modelo de Laloux e as Ciências Sociais

Para começar a minha crítica ao modelo de Laloux com base nas ciências sociais, quero apresentar a linha de pesquisa que mais se assemelha à proposta dele. Como já disse antes, a bibliografia citada por Laloux não cita em momento algum qualquer autor do campo das ciências sociais. Tenho sérias dúvidas se ele tem ideia das implicações do seu modelo e das relações com pesquisas neste campo.

Evolução Sociocultural

A evolução sociocultural é “o processo pelo qual a reorganização estrutural é afetada ao longo do tempo, eventualmente produzindo uma forma ou estrutura que é qualitativamente diferente da forma ancestral”. (Wikipedia)

A maior parte das abordagens do século 19 e algumas do século 20 visavam fornecer modelos para a evolução da humanidade como um todo, argumentando que diferentes sociedades atingiram diferentes estágios de desenvolvimento social.

O evolucionismo sociocultural tornou-se a teoria predominante da antropologia sociocultural e está associado a estudiosos como Auguste Comte, Edward Burnett Tylor, Lewis Henry Morgan, Benjamin Kidd, L. T. Hobhouse e Herbert Spencer.

A proposta do Laloux está especialmente alinhada com as ideias de Comte, Morgan, Tylor e Spencer.

Evolucionismo Cultural Clássico

O evolucionismo sociocultural clássico tentou formalizar o pensamento social em linhas científicas, com a influência adicional da teoria biológica da evolução.

Se os organismos podiam se desenvolver ao longo do tempo, de acordo com leis discerníveis e deterministas, então parecia razoável que as sociedades também pudessem.

A sociedade humana foi comparada a um organismo biológico, e os equivalentes da ciência social de conceitos como variação, seleção natural e herança foram introduzidos como fatores que resultaram no progresso das sociedades.

A noção de progresso levou à ideia de “estágios fixos” através dos quais as sociedades humanas progridem, geralmente em número de três – selvageria, barbárie e civilização – mas às vezes muito mais. Naquela época, a antropologia estava surgindo como uma nova disciplina científica, separando-se das visões tradicionais das culturas “primitivas” que geralmente eram baseadas em visões religiosas.

Só pra dar uma ideia das implicações desse tipo de pesquisa, o Spencer claramente achava que a evolução da sociedade trouxe uma hierarquia racial com caucasianos no topo e africanos na base (Simon (1960). “Herbert Spencer and the Social Organism“. Journal of the History of Ideas.).

Ou seja, é fácil chegar a conclusão de que essas teorias de estágios de desenvolvimento estão intimamente ligadas com uma perspectiva colonialista e racista. Ok, talvez isso seja um pouco radical, um salto muito grande da minha parte. Mas pensa comigo… Não é conveniente ter um modelo que explica a sociedade de uma maneira que justifique as atrocidades cometidas pelo colonialismo dizendo que era tudo em nome do progresso? Da evolução?

Adam Smith e August Comte também trouxeram as suas propostas de estágios de desenvolvimento da sociedade.

E todas essas propostas refletiam uma visão essencialmente racionalista (como no iluminismo) e focada na visão de um homem branco arrogante.

Evolucionismo Cultural Moderno

Abordagens mais recentes concentram-se em mudanças específicas de sociedades individuais e rejeitam a ideia de que as culturas diferem de acordo com o quanto cada uma se moveu ao longo de uma suposta escala linear de progresso social.

Antropólogos culturais como Franz Boas e suas alunas Ruth Benedict e Margaret Mead, tipicamente consideradas como as líderes da rejeição da antropologia ao evolucionismo social clássico, usaram etnografia e métodos empíricos mais rigorosos para argumentar que as teorias de Spencer, Tylor e Morgan eram especulativas e baseadas em dados etnográficos sistematicamente deturpados.

As teorias sobre “estágios” de evolução foram especialmente criticadas como ilusões. Além disso, elas rejeitaram a distinção entre “primitivo” e “civilizado” (ou “moderno”), apontando que as sociedades ditas primitivas contemporâneas têm tanta história e foram tão evoluídas quanto as chamadas sociedades civilizadas.

Elas argumentaram que qualquer tentativa de usar essa teoria para reconstruir as histórias de povos não alfabetizados (ou seja, não deixando documentos históricos) é inteiramente especulativa e não científica. Também observaram que a progressão postulada, que tipicamente terminava com um estágio de civilização idêntico ao da Europa moderna, é etnocêntrica.

Críticos posteriores observaram que essa suposição de sociedades com estágios fixos foi proposta precisamente na época em que as potências européias colonizavam sociedades não ocidentais e, portanto, era egoísta.

Muitos antropólogos e teóricos sociais agora consideram a evolução cultural e social unilinear um mito ocidental raramente baseado em bases empíricas sólidas. Os teóricos críticos argumentam que as noções de evolução social são simplesmente justificativas para o poder das elites da sociedade.

Assim, o evolucionismo sociocultural moderno rejeita a maior parte do evolucionismo social clássico devido a vários problemas teóricos:

  • A teoria era profundamente etnocêntrica — faz julgamentos de valor pesados sobre diferentes sociedades; com a civilização ocidental vista como a mais valiosa.
  • Assume que todas as culturas seguem o mesmo caminho ou progressão e têm os mesmos objetivos.
  • Equipara a civilização com a cultura material (tecnologia, cidades, etc.)
  • Equipara a evolução com progresso ou aptidão, com base em profundos mal-entendidos da teoria evolutiva.
  • É constantemente contrariado por falta de evidências. Muitas (mas não todas) sociedades supostamente primitivas são indiscutivelmente mais pacíficas e equitativas/democráticas do que muitas sociedades modernas e tendem a ser mais saudáveis no que diz respeito à dieta e à ecologia.

A proposta do Laloux parecer estar claramente associada ao evolucionismo cultural clássico.

O Modelo de Laloux é funcionalista

Resta-nos agora encaixar o modelo apresentado por Laloux dentro de algum paradigma sociológico.

O funcionalismo orgânico parece ser o movimento dos paradigmas sociológicos mais apropriado para a proposta de Laloux. Ele confere propriedades de um organismo vivo à sociedade e propõe um processo evolutivo divido em estágios fixos. E ainda, ele diz que esses estágios são estágios de consciência.

Laloux está buscando as diferentes funções exercidas por grupos de pessoas em cada fase de desenvolvimento da sociedade e afirmando que existem necessidades que demandam ação, no caso dele a colaboração, que contribui para novos modelos organizacionais. É a clássica ideia de progresso associado à divisão social do trabalho.

São várias as críticas a este modelo sociológico. A maioria dessas críticas são direcionadas ao funcionalismo de Comte e Spencer (que mais se assemelham à proposta do Laloux). Entre elas estão:

  • ignora desigualdades, incluindo raça, gênero, classe, que causam tensão e conflito.
  • é tautológico, isto é, tenta dar conta do desenvolvimento da sociedade unicamente através dos efeitos que lhes são atribuídos e, assim, explica os dois circularmente.
  • afirma que a sociedade tem “necessidades” como um ser humano, o que caracteriza uma afirmação ontológica.
  • os indivíduos não possuem senso de ação, são apenas marionetes esperando o destino de cumprir a sua função em nome do progresso, da evolução.

Isso se torna visível com o modelo de Laloux, que oferece uma visão elegante e simples de como a humanidade se desenvolveu. Como se fosse possível descrever esse tipo de fenômeno de uma forma objetiva e como se os processos evolutivos se comportassem de forma estável e previsível. Mesmo as teorias da evolução sociocultural falam sobre um mínimo de 200 paradigmas diferentes, enquanto Laloux tentou reduzir isso a cinco.

Será que o Laloux está ciente de tudo isso?

Laloux tenta relativizar todas essas questões dizendo que:

Criamos problemas quando acreditamos que os estágios posteriores são “melhores” do que os estágios anteriores. Uma interpretação mais útil é a de que os estágios posteriores são formas “mais complexas” de lidarmos com o mundo. Por exemplo, alguém funcionando no modo Pluralista-Verde conseguiria integrar perspectivas conflitantes das pessoas de um jeito que outro, operando no estágio Impulsivo-Vermelho, provavelmente não seria capaz.

Mas isso só piora as coisas. Primeiro que ele tá reproduzindo o discurso colonialista de que povos “primitivos” não eram capazes de se relacionar de forma “mais complexa” com o mundo. Segundo, que ele tá tentando trocar seis por meia dúzia ao afirmar que mais complexo não é igual a melhor que. Falando de uma organização… O paradigma teal não é preferível ao laranja?

“Não sou melhor que você porque estou num paradigma diferente. Eu só consigo me relacionar de uma forma mais complexa com o mundo que você não consegue.”

Ele também tenta tirar o cavalinho da chuva recorrendo à clássica heurística do Korzybski dizendo que o mapa não é o território:

A discussão sobre os estágios e as cores é apenas uma abstração da realidade, assim como um mapa geográfico é apenas uma representação simplificada de um território; ele nos oferece distinções que facilitam a compreensão da realidade subjacente, mas não é capaz de oferecer um retrato completo da mesma. (pg 51)

Mas ao mesmo tempo ele também afirma na mesma página:

A consciência humana evolui em estágios sucessivos. Não há como negar a enorme quantidade de evidências que respalda esta realidade. O problema não é com a realidade dos estágios, mas a forma como vemos esta escada.(pg 51)

O que é isso se não uma ontologia da consciência? Korzybski assume uma posição idealista, que entende a limitação do nosso conhecimento e reconhece que todos os modelos são falaciosos. Laloux utiliza a heurística mas se contradiz ao dizer que “não há como negar a enorme quantidade de evidências que respalda esta realidade”, isto é, realismo ingênuo.

Depois ele insiste na ideia de que todo paradigma inclui e transcende o paradigma anterior. Ora, então se eu estou no paradigma Teal significa que eu incluo todos os paradigmas anteriores. Mas se eu estou no paradigma vermelho não consigo acessar o Teal e além disso ainda tenho que subir uma escadinha linear pra chegar até lá?

Ele também afirma que existem muitas dimensões no desenvolvimento humano e elas não evoluem todas juntas. Essa é provavelmente a única coisa que fez sentido em todo o modelo apresentado.

Só para mostrar mais uma evidência da certeza ontológica do Laloux aqui vai mais um trecho:

Para evitarmos a simplificação excessiva, é preciso cuidado também em como aplicar a teoria do desenvolvimento em relação às organizações. Às vezes me perguntam: “De que cor é esta ou aquela organização?” Eu sempre tomo o cuidado de explicar primeiro o que quero dizer quando falo sobre organizações que funcionam em determinado estágio como Âmbar, Laranja ou Verde: estou me referindo a sistemas e cultura, não a pessoas.

Mesmo quando ele tenta evitar a simplificação excessiva ainda deixa claro que o seu modelo é confiável o suficiente para “diagnosticar” um sistema social. Um sistema social não é uma máquina. Não dá pra pegar um modelo colorido e afirmar de forma objetiva qual é o espectro de consciência de uma organização. Isso implica ignorar toda a intersubjetividade, instabilidade e complexidade dos fenômenos sociais.

Os estágios das organizações são manifestações da liderança

Outra coisa que me chama muito a atenção é que Laloux atribui o estágio de consciência de uma organização às lideranças.

Este trecho deixa isso claro:

O que determina o estágio a partir do qual uma organização funciona? É o estágio através do qual sua liderança tende a olhar para o mundo. Consciente ou inconscientemente, os líderes estabelecem estruturas organizacionais, práticas e culturas que fazem sentido para eles e que correspondem à sua maneira de lidar com o mundo.(pg 41)

Se o estágio de consciência fosse uma coisa que realmente existisse além de uma questão conceitual eu concordaria que esta sentença é meia verdade. Ok, talvez menos que meia verdade. Essa visão ignora completamente a influência de todos os outros atores e das estruturas sociais de um país e de uma época e bota os líderes como a fonte suprema do estágio de consciência de uma organização.

Ele ainda continua:

Isto significa que uma organização não pode evoluir além do estágio de desenvolvimento do seu líder.

Eu vou empatizar com o Laloux e olhar pra isso de outra forma.

Acho que o que ele quer fazer aqui é estabelecer um convite para os vários líderes que estão lendo o livro dele para refletirem sobre as diversas práticas, rituais e estruturas que eles promovem nas organizações. O problema é que ele insiste na ideia de um estágio de consciência, uma mudança de mindset. Afinal, ele é coach. Né?

Ou, talvez, ele esteja dizendo que se a pessoas que possuem mais poder e influência em uma organização não comprarem a ideia de ir pro “próximo estágio de consciência” nada vai funcionar. Se os líderes não mudarem o mindset, nada feito. Tudo bem, eu consigo me relacionar com isso e perceber como no meu próprio trabalho isso se manifesta de forma presente. Mas relacionar isso com uma ideia metafísica de “estágio de consciência” é desnecessário. Visão de mundo poderia ser uma alternativa para isso. E mesmo assim, a visão de mundo não é a causa raiz fundamental de todos os problemas de forma isolada. Está relacionada com um sistema sociocultural e com um contexto histórico.

Teal é um culto?

O último aspecto da minha crítica é direcionado às características de “culto” que este movimento parece ter. Tom Nixon, autor de “working with the source”, chegou a chamar os seguidores do movimento de Lalouxnáticos.

Uma das maiores fontes do cultismo em torno desse movimento advém da própria inspiração do Laloux: Wilber e Spiral Dynamics.

A questão é que este modelo (dos estágios de consciência) cria um sentimento de superioridade e inferioridade. Eles criam uma crença equivocada de que alguns são mais evoluídos que outros (Corporate Rebels, 2017). Mas também explica a natureza semi-religiosa dos atuais “movimentos Teal” que estão se preparando para o “próximo estágio”, “grande salto”, “grande mudança” ou “transformação” que supostamente está à nossa frente (Visser, 2014).

O psiquiatra Robert Jay Lifton escreveu um artigo intitulado Cult Formation no início dos anos 80. Ele delineou três características primárias, que são as características mais comuns compartilhadas por cultos destrutivos:

  1. Um líder carismático, que se torna cada vez mais um objeto de adoração à medida que os princípios gerais que podem ter sustentado originalmente o grupo perdem força. Esse é um líder vivo, que não tem responsabilidade significativa e se torna o elemento mais definidor do grupo e sua fonte de poder e autoridade.
  2. Está em uso um processo de doutrinação ou educação que pode ser visto como persuasão coercitiva ou reforma do pensamento (comumente chamado de “lavagem cerebral”).
  3. Exploração econômica, sexual e outras de membros do grupo pelo líder e pelo círculo dominante.

Eixste um líder carismático que sob algumas perspectivas pode ser considerado como objeto de adoração. Também existe um processo de reforma do pensamento evidente. Talvez o único ponto que eu não veja presente no movimento Teal é o da exploração. Quer dizer… Talvez eu possa forçar um pouco a barra olhando para consultores que estão vendendo “o salto para o próximo estágio de consciência” por aí? Talvez nós mesmos aqui na Target Teal tenhamos feito isso em algum momento e este artigo é também uma autocrítica disso? hahaha

Ok, talvez o movimento Teal não seja um culto no sentido estrito. E talvez isso não seja responsabilidade do Laloux. Ele não tem culpa de ter sido tão bem sucedido se algumas pessoas optam por se comportar de forma lalouxnática utilizando o seu modelo para categorizar os outros e convidar as organizações a darem um salto para o próximo estágio de consciência. Ele tentou avisar dos perigos.

Mas o que esperar quando se utiliza um modelo linear de evolução da consciência que propõe uma hierarquia desenvolvimentista? O modelo é falacioso por natureza. Talvez seja útil para um psicólogo na clínica, um estudioso do desenvolvimento humano, apoiado por vários outros modelos e com uma extensa bagagem.

Este modelo incentiva pessoas excessivamente confiantes a se colocarem como xamãs que vão alterar a consciência das organizações.

Conclusão

Como é óbvio, a minha crítica central ao livro do Laloux foca no modelo de evolução da consciência humana aplicado ao desenvolvimento da sociedade como um todo. Não tenho nenhuma crítica ao resto do livro exceto a questão de que ele teve um viés de confirmação gigantesco ao elaborar um modelo e depois selecionar 12 organizações que ele achava que se encaixavam nisso. O pessoal do Corporate Rebels visitou as organizações e perceberam que esse negócio de Teal não é muito real.

E ressalto que o maior problema para mim está na generalização de um modelo que se aplica ao indivíduo para a sociedade como um todo. Este modelo é um elemento central da narrativa do autor.

Zaid Hassan parece concordar com a minha crítica sobre o modelo no seu artigo de 2015 “*Is Teal The New Black? Probably Not* “.

Vou sumarizar aqui as minhas críticas ao modelo:

  • É funcionalista e carrega premissas de linhas de estudos que foram criticados por serem uma justificação das atrocidades do colonialismo.
  • A proposta de Laloux parece trazer uma perspectiva objetiva e estável da evolução sociocultural e ignora a complexidade dos fenômenos sociais.
  • O modelo, mesmo com todos os avisos, equipa as pessoas com uma falácia que suporta essa noção do ser mais evoluído que o outro.
  • O modelo parece ser utilizado como um instrumento ontológico – que descreve a realidade como ela é – e não epistemológico – que nos ajuda a perceber a nossa própria percepção da realidade de uma forma crítica.
  • Laloux parece acreditar que o “estágio de consciência” das organizações é um reflexo dos seus líderes.
  • O modelo de Laloux pressupõe um processo evolutivo linear e ignora as descobertas das ciências sociais contemporâneas.
  • Ninguém mais fala da linha temporal proposta por Laloux além de Wilber e seus seguidores. Não existe nenhuma referência a este modelo no mundo das ciências sociais.
  • O movimento Teal possui características análogas às características de um culto.
  • O autor se propõe a falar de uma pesquisa socioantropológica mas não cita nenhuma referência deste campo.

Quero ressaltar que vejo valor na pesquisa que o Laloux fez durante 2 anos nessas 12 organizações. A forma como ele conseguiu agrupar certos fenômenos sociais em categorias compreensíveis pode ser claramente vista como um convite para a transformação social nas organizações. Ele fez um compêndio muito detalhado dessas organizações e ofereceu várias perspectivas que definitivamente enriqueceram o meu trabalho como consultor.

Eu subscrevo às noções de propósito (desde que não seja evolutivo. Quem sabe adaptativo?), autogestão e integralidade como sendo princípios úteis a serem considerados para desenhar organizações no século XXI.

Acho que o livro seria igualmente valioso sem a premissa de estágios de consciência e o jargão do evolucionismo. É dispensável. Os diferentes estágios poderiam ser apresentados como inferências do Laloux para dar nome a fenômenos sociais que ele observa nas organizações, sem qualquer menção a estágios. O propósito pode ser adaptativo, responsivo, ou simplesmente propósito mesmo.

E sobre o Wilber, curto bastante o trabalho dele. Mas ele está pra mim na categoria de literatura psicodélica, junto com Mckenna, Huxley, Castañeda, Grof e Mindell. A forma como ele expandiu o conceito de Holon do Arthur Koestler é super legal e está presente em toda a sua teoria integral. :)

Por fim, acho que vale trazer um ponto sobre a Target Teal, que obviamente foi influenciada pelo livro e pelo movimento. Muitas conversas sobre esse tema aconteceram. Dentro das nossas reflexões já foi cogitado até mudar o nome da organização. Esta é apenas uma das nossas várias contradições.

Talvez algum leitor poderia argumentar: “Mas Ravi, você faz parte do movimento Teal. Olha o nome da organização em que você é sócio!”

De fato. Esta é uma contradição com a qual eu vivo todos os dias. Não tenho vergonha de admitir as minhas incoerências. Estou pronto para refletir sobre isso.

Também quero deixar claro que este e qualquer texto no blog da Target Teal representa apenas a opinião da pessoa que o escreve. Nós não buscamos consenso e temos opiniões diversas sobre vários temas. Essa diversidade de perspectivas é algo que considero essencial na nossa trajetória.

Seguimos tecendo, um dia de cada vez.

Obrigado por ler até aqui!

Anexo: Bibliografia do Laloux

Deixo aqui a única bibliografia que o laloux ofereceu no que diz respeito aos estágios de desenvolvimento humano.

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Por Published On: 4 fevereiro, 2022Categorias: Autogestão, Design Organizacional3 comentários

Sobre o(a) autor(a): Ravi Resck

Ravi é um hacktivista social, facilitador, org designer e mapeador de sistemas. Pesquisa metodologias colaborativas e complexidade no contexto organizacional, relacional e ambiental. É parceiro na Target Teal, CollabDesign e Facilita.Social

3 Comments

  1. Fabiana Prudente 4 de fevereiro de 2022 às 20:06 - Responder

    Já estive em algumas conversas sobre essa visão crítica ao Reiventando, mas confesso que ver um texto materializado – bem escrito e embasado – me deixa com borboletas no estômago. Ravi, aprecio e suporto a sua expressão nesse artigo. Conviver e aprender com contradições é algo caro pra mim e é uma honra poder viver isso com vocês da Target Teal, inclusive quando é um tema que afeta, a meu ver, nossas vísceras.

  2. Lucas Selbach 8 de fevereiro de 2022 às 21:29 - Responder

    Eita, seu! Preciso ler uns 15 livros pra entender todo o artigo (no mínimo)
    =D
    Muito bom, Ravi. Ótimas ponderações pra gente funcionar mais epistemologicamente.

    PS: achei um erro 🙈 só pra te avisar – ” Não existe nenhuma referênia”. Foi um momento fanho, creio eu.

    Valeu pelo artigo!
    abs

  3. ROBERTO SILVEIRA BRAGA 18 de fevereiro de 2022 às 20:42 - Responder

    Parabéns pelo artigo.

    A argumentação pressupõe conhecimento em várias áreas como filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e aí vai.

    É um artigo difícil de ler.

    Como em todas as áreas há fundamentos questionáveis, chegar a uma teoria da evolução organizacional é impraticável.

    O livro tem seus méritos, inclusive o de ter inspirado esse artigo. Seu mérito é fazer pensar.

    Quanto ao Teal há várias possibilidades de pontos de vista, dependendo da base teórica considerada.

    O meu ponto de vista é que ajuda mais do que prejudica, pois ajuda a pensar fora da caixinha.

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