As ideias de Spinoza vêm afetando profundamente minha forma de pensar e de interagir no mundo, com impactos na vida privada e profissional. Sendo assim, não tive outra escolha senão produzir esse texto, fruto daquelas forças que se apropriam da gente.
Para além dos impactos individuais, percebo também na Target Teal algumas mudanças. As perspectivas pós-estruturalistas e pós-humanistas (que inclui a filosofia da diferença, do qual Spinoza faz parte) vêm modificando a maneira como compreendemos e intervimos nos nossos clientes, sendo que, aos poucos, adotamos um olhar mais cartográfico. Passamos a tratar coisas e situações como atuantes, eliminando a distinção ontológica clássica entre humanos e não-humanos, subjetividade e objetividade.
Voltamos a Spinoza. Nascido em Amsterdã, em 1632, Bento de Espinosa (ou Baruch Spinoza) foi um dos grandes filósofos da imanência (termo posterior dado por Gilles Deleuze). Ao lado de Leibniz e Descartes, ele integra a tradição racionalista, embora tenha pouca relação com esses dois. Descendente de uma família judaica de origem portuguesa que fugiu da Inquisição, estudou na sinagoga de sua comunidade, aprendeu hebraico e aprofundou-se no Talmud e na Bíblia. Desde jovem, no entanto, questionava a concepção de um deus antropomórfico e separado da natureza.
Ao longo da sua breve existência, manteve um estilo de vida frugal e valorizava os prazeres simples. Trabalhava com o polimento de lentes, ofício que o expôs à inalação de pó de vidro e contribuiu para sua morte prematura, aos 44 anos. Por questionar os fundamentos morais e religiosos de sua época, sofreu perseguição política constante. Embora “Deus” estivesse mutio presente em todos os seus escritos, seus contemporâneos o consideravam ateu. A Ética, sua obra principal, só veio a público após o seu falecimento e foi imediatamente proibida por autoridades religiosas e políticas. Seu Tratado Político permaneceu inacabado.
Uma única substância
O método spinozista apropria-se do rigor dos geômetras. Na Ética, o pensamento se estrutura por meio de axiomas, corolários e demonstrações, semelhante a um tratado matemático. O formato causa certa estranheza inicial aos leitores desacostumados (como eu), mas também permite uma argumentação racional e milimetricamente organizada. A premissa central é a de que a realidade, a existência, a natureza e Deus compõem um único plano, porém com infinitas variações. Essa proposição contrastava com a perspectiva platônica, que dividia a realidade em duas instâncias — o mundo ideal transcendente, e perfeito de um lado, e a existência terrena, finita e imperfeita de outro.
Spinoza estabelece uma ruptura radical ao postular que a divindade e a natureza coincidem: Deus sive Natura [Deus ou Natureza]. Tudo se resume a uma única substância, da qual se manifesta de infinitas formas. Esse abandono do plano transcendente rendeu a ele o rótulo de ateu. Nessa visão, a natureza atinge a perfeição em sua simples existência, abarcando tudo o que há.
Para entender a radicalidade dessa proposição, basta compará-la com o modelo das religiões monoteístas. Na tradição teológica dominante, Deus opera como uma causa transitiva, ou seja, separada de seu efeito. Pense em um marceneiro que constrói uma mesa. O criador age sobre a matéria, finaliza a obra e, a partir desse momento, a mesa passa a existir independentemente dele. O criador é categoricamente distinto da criatura. Spinoza destrói essa premissa. Para ele, Deus é uma causa imanente. Ele produz permanecendo naquilo que produz. A obra e o “artesão” são a mesma coisa.
É aqui que entram os conceitos de natura naturans [natureza naturante] — a natureza enquanto processo infinito, força criativa e potência de produção — e natura naturata [natureza naturada] — os produtos dessa atividade, as coisas já formadas, como os planetas, uma árvore, eu ou você. São dimensões absolutamente inseparáveis, operando como facetas de uma mesma e única realidade.
As implicações disso são perturbadoras para qualquer moral religiosa tradicional. Se tudo o que existe é uma expressão dessa substância divina única, não há espaço para o mal como uma força externa ou um erro de projeto. A divindade não está apenas em um lindo pôr do sol ou em um ato de caridade. O vírus letal que se multiplica em um hospedeiro, o capitalismo, um tsunami que varre uma cidade do mapa ou um predador que estraçalha a sua presa são, de forma igualmente radical, a própria natureza (Deus) se expressando, modificando-se e atualizando sua potência. Não há um plano moral universal sendo violado por uma entidade demoníaca; há apenas corpos da mesma substância se compondo e se decompondo.
Ao final, a obra de Spinoza substitui os modelos essencialistas por uma abordagem fundamentada na potência. Cada ser possui uma capacidade singular de variar e de produzir o novo. O autor nos convida a abrir mão de ideais inatingíveis e regras morais transcendentes. O foco recai puramente sobre a ética, ou seja, na maneira como compomos as relações em nossa própria vida a partir dos nossos encontros. Para o filósofo, a questão central nunca foi o que o “se deve”, mas sim o que pode um corpo?
Moral, ética, potência e potestas
Para avançar nesse raciocínio, é interessante demarcar a diferença entre a moral e a ética, o que nos leva a compreender a dupla dimensão da nossa força vital: a “potência” (potentia) e o nosso “poder de ser afetado” (potestas). A ética proposta por Spinoza corresponde a um modo de vida no qual buscamos mapear ativamente os nossos encontros.
Diferente do senso comum que muitas vezes os opõe de forma moral, na ontologia spinozista esses conceitos são duas faces da mesma moeda. A potência é justamente essa força afirmativa de existir e agir. É a capacidade de produzir diferença, de variar, de criar e de sentir o mundo. A potestas, por sua vez, é a contraparte indissociável dessa potência, que nos permite interagir e sermos afetados pelas coisas. A ética busca descobrir quais relações são de composição — ou seja, nos ajudam a aumentar a nossa potência, a nossa capacidade de viver e de ser afetado — e quais degradam e reduzem essa capacidade vital. Parece uma cartografia ou um mapeamento de tensões, não é?.
A questão central da vida prática define-se pela forma como esse poder de ser afetado (potestas) é preenchido. É aqui que entram os aparelhos de captura institucionais (o poder político ou corporativo exercido de forma tirânica), que operam como um mecanismo parasitário. Trata-se do movimento em que um corpo (ou uma organização) preenche o nosso desejo para os seus próprios fins. Essas estruturas opressoras sequestram o nosso poder de ser afetado, bombardeando-o intencionalmente com forças externas que nos mantêm em um estado contínuo de padecimento, ou seja, dominados pelas paixões.
Podemos entender esse processo como uma forma de captura. Os agenciamentos de poder sempre oferecem algum tipo de recompensa ilusória em troca dessa prisão, o que acaba nos tornando cúmplices e reféns da relação. Ao aceitarmos essa recompensa, abrimos mão de preencher o nosso poder de ser afetado com afecções adequadas (as ações que nascem da nossa própria essência) para sermos geridos pelo exterior.
Por conta disso, não existe qualquer regra moral predefinida na filosofia de Spinoza. O que opera é apenas o princípio de avaliar os encontros, percebendo na prática da vida quais deles compõem com a nossa potência e geram bons/maus encontros, e também qual o uso que fazemos dessas (de)composições.
Substância, atributos e modos
Agora nos debruçamos sobre alguns conceitos e definições apresentadas na Ética. O primeiro deles é a “substância”, que coincide integralmente com a natureza e com Deus. Trata-se da coisa única da qual todo o resto é apenas variação. Gosto de pensar na substância como um oceano sem bordas; as ondas em constante movimento são as variações passageiras, mas tudo o que emana delas está contido dentro da mesma massa de água.
Em seguida, aparecem os “atributos”. Eles funcionam como as diferentes manifestações ou dimensões dessa substância. Como a potência de Deus é absoluta, ela se desdobra em infinitos atributos. Nós, contudo, só temos capacidade de conhecer e experimentar dois deles: o pensamento e a extensão (esta última compreendida como a matéria e os corpos em movimento).
Esses atributos operam como instâncias paralelas. Diferente do que propunham pensadores como Platão ou Descartes, não há uma hierarquia nem uma relação de causa e efeito entre a mente e o corpo. Spinoza estabelece um paralelismo estrito. Uma ideia, que é uma manifestação do atributo do pensamento, sempre possui um correspondente corporal, uma determinada disposição de movimentos no atributo da extensão. Um pensamento não dá ordens ao corpo. Quando formulamos uma ideia, a nossa corporalidade já está articulando o movimento correspondente a ela. São dimensões de uma única realidade se manifestando simultaneamente.
No mundo organizacional, podemos pensar em uma prática qualquer, talvez a avaliação de desempenho. Nesse evento, o atributo da extensão se manifesta na materialidade do processo — o formulário preenchido, o software de RH, o agendamento das 1o1s e até as alterações fisiológicas, como o frio na barriga de quem é avaliado. Simultaneamente, o atributo do pensamento se expressa nas ideias e afetos que compõem essa mesma realidade — a crença na meritocracia, o julgamento do gestor, a narrativa de “sucesso” da empresa e o medo ou alegria do funcionário. Note que não é o formulário que causa o medo, nem o medo que faz o formulário aparecer; corpo e ideia são apenas duas faces da mesma substância.
Por fim, temos os “modos”, que correspondem às variações finitas que se dão dentro de cada atributo. No atributo do pensamento, os modos são as infinitas ideias possíveis. No atributo da extensão, os modos são os corpos: eu, você, uma ferramenta, uma planta. Tudo o que existe de forma delimitada e finita no tempo e no espaço é um modo da extensão.
Como a substância é inesgotável, Spinoza deduz que tudo aquilo que é possível de existir, existirá inevitavelmente em algum momento. No entanto, nem todos os modos possíveis existem simultaneamente agora. Para que um modo passe a existir de fato, ele necessita de uma teia causal que o produza. Uma simples molécula de água exige que o hidrogênio e o oxigênio se organizem em condições específicas. Do mesmo modo, o nascimento de um ser humano requer uma cadeia anterior gigantesca, envolvendo dinâmicas biológicas, sociais, materiais, entre outras.
Spinoza adota, portanto, um mecanicismo determinista, em que nada ocorre por acaso, mas como produto dessa sucessão de causas e efeitos. O detalhe é que essa cadeia relacional é absurdamente complexa. Como não conseguimos apreender a totalidade dessas causas, a vida nos parece um grande mistério. Apenas a própria natureza abarca o entendimento desse todo causal — e é sempre bom lembrar que essa natureza não elabora planos enquanto entidade consciente; ela simplesmente atua e se expressa pela necessidade de sua própria perfeição.
Paixões e ações
A ética de Spinoza é, sobretudo, uma ética dos afetos. É a partir deles — as modificações simultâneas no nosso corpo e no nosso pensamento — que conseguimos entender se a relação que estabelecemos com outras coisas é de composição ou de decomposição. Para mapear essa dinâmica, o filósofo propõe três tipos principais de afetos: as “paixões” (que se subdividem em alegres e tristes) e as “ações” (que correspondem à virtude).
As paixões são afetos que dependem de causas externas. Nelas, o nosso corpo não é o autor principal do que nos acontece. Quando algo de fora nos atinge e aumenta a nossa potência, experimentamos a alegria. Pode ser algo corriqueiro, como receber um aumento de salário; a potência sobe momentaneamente, mas a causa veio de fora. Em contrapartida, quando um evento externo reduz a nossa potência, vivemos a tristeza. A característica central da paixão é que ela nos torna reféns do acaso, pois não parte da nossa própria essência. Por isso, mesmo as paixões alegres — que produzem aumento da nossa potência — carregam uma limitação. Ao dependermos de fatores externos para nos realizarmos, nossa potência permanece instável.
É nesse ponto que se destacam as ações. Uma ação é um afeto invariavelmente alegre, do qual nós mesmos somos a causa principal. Ela brota da nossa própria essência — a qual, para Spinoza, não é uma alma interior fixa ou uma identidade imutável, mas a variação contínua da nossa própria potência. Quando agimos a partir de nós mesmos, entramos em um ciclo de retroalimentação. A essência produz alegria, e essa alegria aumenta ainda mais a nossa potência e a nossa capacidade de existir. O trabalho ético, portanto, consiste em compreender nossos afetos para, aos poucos, multiplicar os bons encontros e transmutar as paixões em ações.
Causas (in)adequadas e as duas ilusões
Essa dinâmica se relaciona diretamente com o que Spinoza chama de “causa adequada” ou “causa inadequada”. Operamos como uma causa adequada quando a nossa essência é o motor daquilo que nos acontece. Por outro lado, sofremos o efeito de uma causa inadequada quando somos movidos por algo externo.
À medida que transitamos para uma vida mais plena de ações e menos capturada pelas paixões, começamos a desconstruir duas ilusões fundamentais que pautam a experiência humana. A primeira delas é a ilusão da liberdade ou do livre-arbítrio. Nós temos consciência das nossas ações e daquilo que desejamos, mas desconhecemos completamente as causas reais que produzem esse desejo. Na nossa ignorância, atribuímos a nós mesmos uma capacidade de escolha livre. Porém, devido ao paralelismo entre os atributos, nosso pensamento não comanda nosso corpo. Nós não gostamos de algo porque esse algo é objetivamente bom; a coisa se torna boa justamente porque gostamos dela. O que vivenciamos como uma escolha livre é, na verdade, o efeito de uma cadeia inconsciente de determinações.
A segunda é a ilusão da teleologia, a crença de que as coisas possuem um propósito ou finalidade. Esse viés alinha-se bastante com o pensamento religioso, que projeta um Deus criador organizando o universo para o benefício e usufruto humano. Spinoza dissolve essa premissa. Não existe qualquer intencionalidade escondida na natureza, apenas uma cadeia mecânica de causas e efeitos. Quando não conseguimos conceber o que determinou um evento específico, nossa ignorância preenche a lacuna inventando um propósito.
O peso dessas duas ilusões fica muito evidente nas nossas relações cotidianas. Quando encontro um colega de trabalho e temos uma interação ruim, a tendência quase automática é atribuir uma intenção a ele. Julgo que ele escolheu livremente ser desagradável.
No entanto, por mais que o outro até afirme ter tido uma intenção, o que está operando nos bastidores é uma rede causal extensa. A atitude dele é o resultado da sua própria história, da vida que levou, dos atravessamentos materiais que sofre e de tudo o que precedeu o nosso encontro. O nosso cruzamento de caminhos é apenas mais um evento dentro dessa multiplicidade. Se fôssemos capazes de compreender a totalidade das causas anteriores a esse momento, perceberíamos que aquele desfecho não teria como ser diferente.
Não há, portanto, teleologia, assim como não há uma liberdade incondicionada nas escolhas do outro. Compreender essa mecânica não nos torna passivos, mas sim verdadeiramente emancipados. Paramos de brigar com fantasmas morais e passamos a mapear os encontros que de fato compõem com a nossa potência.
A transmutação dos maus encontros
No fim, a ética spinozista nos impulsiona a transformar os maus encontros e transmutar as paixões em ações. Sempre que algo nos afeta negativamente, existe uma “zona de vizinhança”, um traço em comum entre nós e a coisa que nos provocou a tristeza. Pensemos em um profissional autônomo, como um designer, que enfrenta uma baixa repentina de clientes e se entristece com a perda de renda. Ele experimenta um mau encontro. A zona de vizinhança, nesse caso, é a sua participação no mercado capitalista e em uma ordem de valores focada em sucesso e produtividade. Se ele não habitasse esse agregado social, a falta de trabalho simplesmente não o afetaria.
Nesse primeiro momento, a tristeza o captura. Ele pode afundar em uma causa imaginária, cultivando a culpa de se achar incompetente ou a paranoia de que alguém está boicotando o seu trabalho. Ele atua sob uma causa inadequada. A transmutação acontece quando ele compreende a ordem das causas do seu contexto. Ao perceber que a crise não diz respeito a apenas uma falha sua, mas a um movimento sistêmico do qual ele participa, a preocupação se transforma. Ele age: seja estruturando novas formas de oferecer seu serviço ou decidindo ir morar em uma ecovila, longe da lógica corporativa, o fundamental é a experimentação. Houve um bom uso do mau encontro, que o transmutou em uma ação que permite a continuidade da variação da sua potência.
As paixões tristes no contexto organizacional
Ao aplicarmos um olhar crítico no campo organizacional, percebemos como ele está repleto de paixões tristes. Um afeto que demanda reflexão no design organizacional e especialmente na consultoria, é a “comiseração”, o que chamamos de sentir pena do outro. Nos engajamos com frequência em processos de ajuda baseados não na potência, mas na tristeza.
Isso ocorre abertamente na consultoria. Alguém do RH nos contrata para aplicar um treinamento passando um recado ao time de que devem ter mais senso de dono, terceirizando uma responsabilidade, e nós aceitamos a demanda. É fácil se deixar mover por um dever moral supostamente altruísta ou pela lógica do mercado. Outros exemplos de comiseração:
- “Deixa que eu faço isso para você, você já está sobrecarregado”
- “Ele já está passando por tanta coisa, ele não aguentaria ouvir isso agora”
Em todo o caso, o afeto da comiseração revela uma carência. Precisamos da fraqueza do outro para reafirmar a nossa própria utilidade e justificar a nossa existência. Trata-se de uma paixão triste. Continuamos dependendo de uma validação externa para atuar no mundo.
Embora ninguém seja de fato independente — a vida é um emaranhado relacional —, a filosofia de Spinoza nos ensina que só podemos ajudar genuinamente a partir do transbordamento da nossa própria potência. Se ajudar o outro exige um sacrifício que nos entristece e esgota, a relação não é ética, mas moral! Sair desse lugar de servidão utilitária é um recomendação de amigo para quem deseja intervir em sistemas sociais sem ser consumido por eles.
Brechas nos aparelhos de captura
A filosofia de Spinoza oferece ferramentas diretas para escaparmos das capturas estruturais. A primeira delas é abandonar o que chamamos de “erro fundamental de atribuição”, ou seja, atribuir o resultado das coisas a uma disposição psicológica (intenção) dos indivíduos, ou o ressentimento, o simples ato de responsabilizar algo que está fora pelo nosso sofrimento. É confortável apontar o RH, hierarquia, a burocracia, o capitalismo ou o chefe como a encarnação do mal absoluto.
Ao compreender a arquitetura invisível de uma situação, deixamos de ser reativos. Evitamos, por exemplo, a cumplicidade cega com os agenciamentos de poder. Retomando o cenário do consultor de RH — ao assumirmos o papel de passar recado sem questionar, recebemos em troca dinheiro e certa reputação. Nos tornamos engrenagens cúmplices. Cessamos a manifestação criativa da nossa potência para recolher migalhas afetivas — recompensas vazias criadas apenas para nos manter subjugados.
Organizações podem ser aparelhos de captura, capturando a potência dos indivíduos para atingir seus objetivos. Contudo, há sempre brechas e possíveis modos de agir ancorados em causas adequadas, por mais opressivo que seja o contexto. Gosto de refletir que todas essas estruturas de poder — que, no fim das contas, também são expressões da natureza e variações da substância — funcionam como uma espécie de ironia da existência. Elas testam a nossa capacidade continuamente, oferecendo o atrito exato que nos obriga a encontrar caminhos singulares para manifestar a nossa potência.
Emancipação no lugar de empoderamento
Para fechar esse texto, gostaria de trazer uma reflexão final sobre empoderamento e emancipação. Muitas vezes, o que chamamos de empoderamento nas organizações é apenas a permissão para que você aja exatamente como o outro agiria no seu lugar. Você recebe uma autonomia ilusória para decidir, mas com a condição implícita de que sua escolha seja uma reprodução fiel da lógica de quem te concedeu esse espaço. Ao agir como um espelho da autoridade, você anula a sua própria diferença e torna sua potência um mero instrumento para repetir formas pré-existentes.
A emancipação, por outro lado, é o que acontece quando você rompe com essa identidade emprestada e passa a agir a partir da sua própria natureza e das composições que realmente fazem sentido para você. Eu poderia dar exemplos, mas esses exemplos não fariam jus ao que esse estado realmente é. O que eu espero, no fundo, é que este texto mobilize afetos em você. Seria um fracasso total se eu deixasse você sem nenhuma questão ou com tudo claro no final. A ideia aqui não é entregar um manual, mas sim que você sinta o incômodo da captura e a urgência de experimentar a sua própria diferença, pois a potência só se prova na prática e não na segurança de uma explicação bem amarrada.
Referências
DELEUZE, Gilles. Espinosa: filosofia prática. 1. ed. São Paulo: Escuta, 2002.
FUGANTI, Luiz. Saúde, Desejo e Pensamento. 1ª ed. São Paulo, SP: Instituto Mojo, 2022.
SPINOZA, Baruch. Ética. 2a ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
RAZÃO INADEQUADA. Espinosa. Disponível em: https://razaoinadequada.com/filosofos/espinosa/. Acesso em: 14 abr. 2026.


A distinção entre poder e potência permite que a gente enxergue a captura do desejo. Isso se percebe nas organizações na hora do “vamos ver”. Quando integrava um GT de diversidade em uma empresa que trabalhei, identifiquei que um parceiro comercial promoveu uma campanha de marketing machista que desvirtuava o 08 de março. Apontei o problema ao grupo e falei sobre a necessidade de posicionamento. Ninguém me apoiou (apenas uma pessoa se posicionou, contrariamente). Acabei encaminhando a ocorrência pessoalmente à área institucional e deixei o GT. O conceito de “empoderamento” me parece um dispositivo de Foucault.
Gostei demais do texto. A filosofia de Spinoza foi transformadora para mim, e percebo que ela confere um polimento especial nas lentes que usamos para enxergar as organizações.
Texto muito bom que toca alguns pontos bem “potentes”. Esse paradigma merece ser cultivado em nossa sociedade.
Cabe-nos oferecer a nossa perspectiva, não simplesmente abandonar a nossa percepção para um ganho de curto prazo. Paradoxalmente, é o que nos leva a perder sustentabilidade e desgasta nossa vitalidade.
No início do texto achei que eu não conseguiria chegar no final. Não estava entendendo muita coisa. Aos poucos algumas coisas começaram a fazer sentido. Consegui chegar no final e nem foi tão difícil, e fiquei interessado em participar do encontro sobre o assunto na próxima segunda-feira.