A-GENTE-TEM-QUE…

Alguns dias atrás, num canal de discussão no Slack da Target Teal, postei uma reflexão sobre o fenômeno que chamei de “A-Gente-Tem-Que”. Estou vivendo isso atualmente na eduK, uma startup brasileira autogerida com quem trabalho, e que se dedica a apoiar pessoas que desejam trabalhar por conta própria, vivendo a partir de suas paixões.

Durante essa noite, após algumas discussões durante minha aula do Reinventando o RH no Rio, fiquei pensando no papel crítico, viabilizador, que a “auto responsabilização” tem na autogestão e na auto-organização de grupos.

“A-Gente-Tem-Que” é um antipadrão que é o contrário disso. Se caracteriza pelo uso de um sujeito indefinido junto de uma exigência velada por um comportamento também pouco claro. É mais que apenas uma forma de se expressar, é uma forma de perceber as coisas. Um jeito de pensar que cria determinados comportamentos. Quando não me responsabilizo pelo que sinto, pelo que preciso ou pelo que escolho fazer, me torno alheio a mim mesmo. Não percebo como contribuo para a situação da qual reclamo. Quase como se fosse possível não fazer parte do que acontece comigo. “Odeio piadinhas preconceituosas” (mas rio por educação). “As pessoas ficam me dizendo todo o tempo o que devo fazer” (e eu acato porque não quero discutir). “Acho horrível isso que está acontecendo” (e me calo para não me expor).

Eis que surge o antipadrão. Quando percebo que algo me inquieta, logo proponho que façamos algo. Nós, vós, eles. Tanto faz. Nem precisa ser algo claro, importa apenas estar no plural. Uma exigência silenciosa e genérica que quando ecoada cria uma pressão social que parece vir de lugar nenhum. Isso pode parecer me legitimar, me deixar mais seguro, tornar tudo mais relevante. #SóQueNão. “A gente devia cuidar melhor das pessoas”. “A gente não devia ter feito isso”. “A gente precisa dizer umas verdades por aqui”. “Alguém tem que resolver isso “. “Vocês tem que mudar esse jeito de trabalhar”. “Políticos não deviam ser corruptos”. “Deveriam nos respeitar mais”. A verdade é que essas falas só diluem responsabilidade. Não geram comprometimento. Inibem ação. Não mudam nada.

Não chamo isso de “vitimização”. Esse é um termo depreciativo e pouco preciso em relação ao fenômeno do qual estou falando. Nesses casos, não me vejo como uma vítima, ainda que me veja como uma parte não ativa no que está acontecendo. Ao perceber dessa forma, me vejo sem poder fazer qualquer coisa a respeito. Isso não é falta de maturidade. Não é preguiça de pensar. Não é comodismo. Ninguém acorda pela manhã e pensa “vou me isentar de tudo hoje”. É uma percepção fragmentada da realidade. Uma crença de que as pessoas e os acontecimentos são coisas independentes e não estão relacionadas.

Já me disseram que também há a situação oposta. Gente que acha que é responsável por tudo e por todos. Será mesmo que isso é o oposto? Quando acho que responsabilidade é uma coisa (em vez de “a forma de participar de algo”) que se escolhe ou que se transfere, então se torna igualmente possível que eu tenha toda ou nenhuma responsabilidade pelo que acontece.

“A-Gente-Tem-Que” é uma tentativa de fuga. Uma fuga de fazer parte do que acontece. Uma fuga impossível porque quando percebo já sou parte. E assumir essa parte é, justamente, o que possibilita fazer algo diferente.

Se você chegou até aqui pensando “é verdade, as pessoas fazem muito isso”, você não entendeu meu ponto. Volte 5 casas e comece de novo. O texto é sobre você que, como eu, generaliza ou fala de fora do problema. Deixo um convite. Que tal substituir o “A-Gente-Tem-Que” por “Eu-Espero-Que” e “Eu-Me-Disponho-A”? Experimente isso por apenas um dia. Se for muito difícil, tente por um período menor ou, no mínimo, durante uma conversa. Vai ser esclarecedor, garanto 😉

Por | 2018-04-30T11:05:36+00:00 Abril 30, 2018|Cultura, Integralidade, Pessoas|2 Comentários

Sobre o Autor:

Publicitário pela FAAP e Sociólogo pela FESPSP, é pós-graduado em Sócio-Psicologia pela FESPSP e tem MBA em Comércio Internacional pela USP. Especialista em técnicas de Diálogo, Comunicação Não-Violenta e Fenomenologia, foi executivo de Recursos Humanos e atuou por mais de 10 em organizações de diversos segmentos. É criador do método de “Design Cultural” para desenvolvimento de culturas organizacionais, empreendedor, mentor de startups, cultural hacker e [un]coach.

2 Comments

  1. João Victor 3 de Maio de 2018 at 14:50 - Reply

    O “eu espero que” não nos coloca também numa posição de passividade?

  2. Emilio Mesquita 3 de Maio de 2018 at 22:36 - Reply

    Boa Marcão!! Excelente texto! Reflete bastante o nosso momento e discussões.

    João Victor, acho que depende do contexto. Mas o “eu espero que” do texto refere-se a você dar clareza da SUA expectativa em relação ao outro ou outros.

    Basicamente você estaria dizendo: Essa é a MINHA expectativa. Que pode ou não ser a de outras pessoas, o vulgo “da gente”.

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