O Vôo da Galinha e as empresas que *quase* voam

Galinhas não voam até onde eu sei.

Algumas organizações também são assim. Quase voam.

Acho que descobri o porquê.

Eram 10:45h da manhã. Eu dirigia em direção a um cliente da Target Teal, esbaforido, uma mão no volante e outra terminando de arrumar a mochila. Farol fechado. Enviei uma mensagem de voz ao meu sócio.

Eu: “Davi, segundo o Waze, vou atrasar 10′ para a reunião. Desculpe!”

Davi: ????

O Waze não erra para menos, ou seja, ainda podia ficar pior.

Soco no volante. Meia dúzia de xingamentos com algumas variações de “merda”.

Naquele momento eu tentava mentalmente corrigir meu atraso. “Talvez se não tivesse tomado café mais tarde. Talvez se não tivesse revisado aquela apresentação antes de sair. Talvez se outra pessoa tivesse ido levar meu filho à escola…”

De súbito cortei a ladainha.

“Péra lá, também não é o fim do Mundo, certo? São só 10 minutos. Essa reunião nunca começa no horário. Sempre tenho que correr atrás das pessoas pra gente começar. Aposto que só o Davi vai estar por lá quando eu chegar. Tenho ótimas justificativas. Tá tudo bem!”

Passado o alívio, veio a dúvida.  

Era curioso como havia me acalmado rápido dessa vez. Rádio desligado. Sem unhas comidas. Nenhuma grande reflexão existencial.

PLIM! (som de ficha mental caindo).  

Entendi o que estava acontecendo. Naquele instante descobri o porquê estava sendo tão generoso comigo mesmo. Na verdade, estava ok com o meu atraso porque sabia que todas as outras pessoas daquela reunião também chegariam atrasadas.

Mandei outra mensagem para o Davi.

Eu: Davi, já sei o que aconteceu! Entendi o meu atraso, entendi o porquê fomos contratados e o motivo das coisas estarem meio estranhas por aí.

Davi: ????

Loops culturais

Quando começamos o projeto nesse cliente não parecia existir um problema específico que deveríamos tratar. Isso é bem normal. As entrevistas que fizemos com diversas pessoas da organização tinham sido bacanas. Leves. Havia histórias difíceis e apaixonantes, assim como em outras organizações.

Quando lá no começo nos diziam

“gostei de vocês mas já vi esse tipo de iniciativa por aqui, não vai funcionar”;

“começamos muitas coisas legais mas que raramente vão para frente”;

“não confio na capacidade e, as vezes, nas intenções de algumas pessoas daqui”;

“tem coisa que se não escalar pros chefes não resolve”;

“a correria nunca acaba”;

“são públicos muito diferentes aqui, é muito difícil agradar todo mundo”

“a prioridade é o que chega por último ou de quem fala mais alto”

Não percebi que estavam todos falando da mesma coisa.

Precisei me perceber repetindo algumas dessas frases para saber do que se tratava.

Quando me vi desconfiando, escondendo, escalando, bajulando, reclamando, me percebi na mesma cena que essas pessoas estavam. Nesse momento fui capaz de entender o script que estava replicando.

Vou reproduzir aqui apenas 1 dentre vários loops culturais que eu e a turma da Target Teal estamos identificando nas organizações por onde passamos. Nós o batizamos da forma mais direta que pudemos: “O Vôo da Galinha”.  

O ciclo torna-se óbvio depois que alguém o revela.

Quando evito dizer “não” para as pessoas, acabo me comprometendo com mais coisas do que sou capaz de realizar. Pratos começam a cair e já não consigo mais honrar todos os acordos que fiz. Quando isso acontece com um grupo inteiro, as pessoas começam a perder a confiança nas decisões tomadas, nas capacidades e intenções das outras pessoas e no futuro da organização. O resultado vai pro beleléu.

A autoridade fica mais centralizada e os mecanismos de controle proliferam. Nesse contexto de desconfiança generalizada, tenho ainda mais medo de não ser aceito, valorizado, reconhecido, suportado. Tenho medo de ser demitido, perder meus amigos ou as tais grandes oportunidades. Diante de tanto medo, é mais seguro agradar, obedecer e concordar. Faz sentido dizer mais “sim” do que “não”.

Faz mesmo?

Quando consegui ver esse padrão tomando forma, queria resolver ele ali na mesma hora, como faria com uma lâmpada queimada. Bem, a verdade é que isso não é possível. Não é uma coisa tangível ou uma engrenagem que possa ser substituída. Intervenções são tão desejáveis quanto imprevisíveis. E apesar delas poderem afetar o padrão, não são capazes de controlar ele.

Saindo do loop

“E o que fazemos então?” é o que você pode estar se perguntando, assim como eu fiz.

Existem muitos caminhos. Para todos os gostos possíveis. O charme disso é que não existe uma fórmula pronta, infalível, apenas esperando para ser aplicada. Digamos que não haveria tantos best-sellers e consultorias por aí se apenas um deles já tivesse a resposta que todos buscam, certo?

O jeito que tratamos isso na Target Teal chama-se Design Cultural. Veja mais sobre esse método aqui.

Nesse processo de facilitação as respostas são tratadas como experimentos culturais, alguns dão certo outros não (é só o tempo que separa a falha do acerto), mas todos trazem aprendizados. Esses experimentos não são soluções de especialistas externos à organização. Eles vêm das inquietações das pessoas que vivem ali e das histórias das quais elas querem fazer parte. Como já disse, a cultura não é um treco quebrado que pode ser reparado. Menos ainda um quadro de Missão e Valores pendurado na parede (“Manifesto” tem sido só o jeito cool de pendurar o mesmo quadro na parede, sorry). Ela é todo esse universo de coisas que existe entre as pessoas e que, de tão delicadas e profundas, as vezes não têm um nome e nem mesmo parece que existem.

Voltemos ao “Vôo da Galinha”. Parece que podemos tentar interrompê-lo a qualquer momento. Pessoalmente prefiro afetar o ponto de menor resistência. Onde o padrão parece mais “frágil”. Ali onde o ovo está prestes a eclodir. Nesse caso, o hábito de não dizer “não”.

Nosso time de projeto decidiu preparar um omelete. Nenhum grande plano para isso. Não acreditamos nessa forma de trabalhar com cultura. Menos planilhas com planos de ação e mais gente sujando as mãos. Dentre os artefatos culturais que criamos para prototipar, resolvemos priorizar um que estimule as pessoas a dizerem mais “não” em seu dia a dia. É importante que sejam iniciativas simples para que possam ser testadas rapidamente. Chamamos isso de mínimas intervenções viáveis (MVI).

Optamos por algo lúdico onde todas as pessoas, do CEO ao assistente, são convidadas a gastar semanalmente uma determinada quantidade de cards que, de um dos lados, tem a palavra “não” em letras garrafais, acompanhada de uma pequena justificativa no verso. Esses cards tem o poder mágico de permitir que as pessoas digam “não” para aquele pedido/demanda/ordem que estão recebendo. Seja lá qual for, seja lá de quem for. Frio na barriga geral! Não sei ainda o que vai acontecer. É o que estamos vivendo neste exato momento. Um pequeno grupo de pessoas inquietas provocando a organização a experimentar algo novo.

O Mito da Maturidade

“Ai meu Deus, mas será que as pessoas estão prontas para isso?”    

Como diz o ditado popular, “não há como fazer omelete sem quebrar ovos”.

Uma palavrinha final sobre o mito da maturidade (clique aqui para ver o que já falamos sobre isso):

O que é maturidade mesmo? Qual escala devo usar para medir esses supostos níveis de maturidade? Quem diz se a fruta tá madura? É a árvore, o cara da feira ou a própria fruta? Ou será que a natureza usa uma matriz 9box que cruza performance com potencial da fruta pra saber qual é comestível e qual é descartável?

Deixo aqui o convite para falarmos menos sobre ‘maturidade’ e mais sobre o ‘amadurecer’. Deixemos de tratar como substantivo (uma coisa que eu possuo, uma propriedade) para tratar como verbo intransitivo (uma coisa que eu faço, um acontecimento). Ou seja, não é algo comprável ou ensinável. Portanto esqueça os cursos e livros para esse fim. Amadurecer tem a ver com praticar. Ninguém tá pronto pra coisa nenhuma até começar a fazer. Esse é o ponto! No nosso caso, apenas comece a dizer “não” mais vezes. Sim é incômodo e, ao mesmo tempo, nos mantém vivos. #ficaadica ????

Quer saber mais sobre loops culturais, design e omeletes? Chama a gente para um café 🙂


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Por |2018-01-15T06:56:22+00:00fevereiro 16, 2017|Cultura, Histórias|3 Comentários

Sobre o Autor:

Publicitário pela FAAP e Sociólogo pela FESPSP, é pós-graduado em Sócio-Psicologia pela FESPSP e tem MBA em Comércio Internacional pela USP. Especialista em técnicas de Diálogo, Comunicação Não-Violenta e Fenomenologia, foi executivo de Recursos Humanos e atuou por mais de 10 em organizações de diversos segmentos. É criador do método de “Design Cultural” para desenvolvimento de culturas organizacionais, empreendedor, mentor de startups, cultural hacker e [un]coach.

3 Comments

  1. Cláudia 16 de fevereiro de 2017 at 18:43 - Reply

    Caramba!!!
    É isso mesmo Davi. O politicamente correto e ficar bem na fita com todo mundo cada vez mais rouba autenticidade das pessoas. Dizer não é apenas o primeiro passo e não mata ninguém, só choca nas primeiras vezes… e depois que o resultado aparece os outros também querem usufruir dos benefícios.
    Massa seu artigo. Valeu!

  2. Simone Santos 16 de fevereiro de 2017 at 22:41 - Reply

    Ótimo!!!!
    Parabéns pelo artigo.

  3. […] fenômeno do Vôo da Galinha ganhando […]

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