Enquanto facilitamos, assumimos uma posição de apoio a um grupo. Aquele conjunto de pessoas passa a confiar que faremos o possível para ajudá-los a tomar consciência das interações e serem mais efetivos. Mas, neste momento, podemos facilmente escorregar para um outro lado: o da manipulação. E isso pode ser inconsciente, já que podemos sutilmente influenciar o caminho se não tivermos atenção aos nossos próprios pensamentos, premissas e preferências. Vamos explorar isso neste texto.

O facilitador habilidoso

Era meados de 2015. Estava trabalhando em um time que desenvolvia um produto digital de aprendizagem adaptativa para escolas. Meu papel era de Scrum Master e já tendo esgotado as possibilidades e repertórios de como ajudá-los, comecei a buscar novas referências de facilitação. Cheguei então no livro “The Skilled Facilitator” (o facilitador habilidoso) do Roger Schwarz.

Para mim foi um daqueles livros que me causaram extrema empolgação, como aconteceu com o Reinventando as Organizações do Frederic Laloux e Holacracia do Brian Robertson. Assim que comecei a ler, percebi inúmeras incongruências na minha prática enquanto facilitador. A abordagem do Schwarz parecia algo extremamente difícil e profundo para mim. Lembro que fiquei tão empolgado com a ideia que marquei uma reunião com o time e apresentei para eles o “modelo de eficácia de grupos” proposto no livro. As reações foram um misto de “ah, já fazemos isso” até “caramba, isso é muito profundo, é terapia”. Estou mais com a segunda.

O que me chamou a atenção no trabalho do Roger Schwarz foi a importância que ele dava para a coerência no comportamento do próprio facilitador, e a partir disso influenciar o grupo a ser mais efetivo. Estava muito alinhado com a frase “seja a mudança que você quer criar no mundo” geralmente atribuída ao Gandhi ou a do Bill O’Brien que diz que “o sucesso da intervenção depende da condição interior do interventor”.

E para saber como ser facilitadores mais efetivos (e não manipuladores), precisamos conhecer a antítese disso: o controle unilateral.

O controle unilateral

O controle unilateral é um modelo mental (sim, um “mindset”, mas cuidado ao papagaiar essa palavra). Podemos dizer que ele é nosso o modo de funcionamento “natural”. Tem as suas raízes no nosso cérebro reptiliano, que está o tempo todo tentando detectar ameaças e sobreviver. Em geral, assumimos esse modo de pensar quando nos deparamos com situações desafiadoras, emocionalmente carregadas e que afetam nossas necessidades humanas.

Neste modelo mental tentamos controlar a situação de forma unilateral para atingir os nossos objetivos. Podemos também chamá-lo de uma abordagem “perde-ganha” ou “ganha-perde”. Ele se baseia em 4 valores, de acordo com Schwarz:

  1. Vencer a conversa: Acreditamos que a situação envolve uma disputa e que uma pessoa vai perder e outra vai ganhar. Por isso, tentamos proteger a nossa posição e garantir que a nossa perspectiva prevaleça. Quem não está do nosso lado, está contra nós.
  2. Estar certo: No controle unilateral, acreditamos que a nossa versão da realidade é correta (um viés cognitivo chamado realismo ingênuo) e que pontos de vistas contrários pertencem aos nossos oponentes. Sentimos orgulho quando nossa posição se sobrepõe. Frases comuns incluem “eu te disse”, “eu estava certo”, “eu sabia que isso aconteceria”.
  3. Suprimir sentimentos: Protegemos a nossa posição e buscamos não revelar qualquer fraqueza ou dúvida. Por isso escondemos qualquer sentimento negativo, evitando o conflito. Acreditamos que sentimentos atrapalham os nossos objetivos de vencer.
  4. Agir racionalmente: Como consideramos sentimentos algo indesejável para o processo decisório e o nosso objetivo, buscamos agir de forma racional.

Além dos valores, Schwarz define algumas premissas para esse modelo mental:

  1. Eu entendo a situação, os que não concordam não entendem: Toda a informação e a minha visão de mundo é completa e correta, por isso não tenho nada a aprender com a conversa.
  2. Eu estou certo, os que discordam estão errados: Se o meu entendimento da situação é completo e do os outros não, eles só podem estar errados.
  3. Minhas intenções são puras, as dos que discordam são questionáveis: Aqui você assume que os outros também estão operando a partir do controle unilateral, logo eles estão contra você. Nesse caso, como você está certo, as intenções dos outros só podem ser questionáveis.
  4. Meus sentimentos e comportamentos são justificáveis: Quando explodo em uma conversa ou me comporto de maneira inadequada, isso é justificável, já que estou certo e os outros é que estão errados, além das intenções dos outros não serem corretas como as minhas
  5. Eu não estou contribuindo para o problema: Como estou certo, quem causa o problema é o outro, eu apenas sou vítima da situação ou o herói salvador. Os outros é que têm comportamentos inefetivos (qualquer similaridade com o triângulo do drama não é pura coincidência).

Quando partimos das premissas e valores do controle unilateral, automaticamente nos engajamos nos seguintes comportamentos:

  1. Trazer minha perspectiva sem perguntar a dos outros e vice-versa: Trazemos nossa perspectiva sem demonstrar curiosidade pela do outro. Ou então o outro compartilha a dele, mas eu guardo a minha, evitando “me revelar”.
  2. Ocultar informações relevantes: Como encaro a conversa pela lente da competição, eu apenas compartilho o que apoio o meu ponto de vista e mantenho em segredo o que vai contra o que penso.
  3. Falar de forma genérica e não acordar sobre termos importantes: Isso envolve não nomear as pessoas envolvidas em uma situação, um comportamento muito comum em facilitadores. Temos receio de gerar uma conversa difícil.
  4. Manter meu racional privado, não perguntar para os outros sobre o deles: Da mesma forma que guardo informações relevantes, também não revelo o que está por trás do meu racional ou pergunto o dos outros.
  5. Defender minha posição sem declarar meus interessse: Declaro minha posição ou o caminho que quero e não revelo minhas intenções e interesses, pois isso poderia fazer com que os outros me questionassem.
  6. Agir sobre inferências e premissas não testadas, assumindo que são verdadeiras: Ao assumir que estou certo, não há qualquer necessidade de testar o meu racional e as minhas inferências. Simplesmente assumo que o que penso é verdadeiro.
  7. Controlar a conversa: Para ganhar, tento influenciar que a conversa siga num rumo que me favoreça. Fugir do assunto é definido por aquilo que EU acho que é “o assunto”.
  8. Evitar conversas difíceis: Para não falar sobre sentimentos e continuar agindo racionalmente, evito entrar em conversas difíceis.

Controle Unilateral

O controle unilateral se assemelha muito com outros modelos apresentados por outros autores. No livro “Conversas Difíceis”, Douglas Stone faz uma distinção entre a conversa de aprendizagem e a “guerra de mensagens”, bastante similar a este modelo mental. Os valores do controle unilateral também são bastante semelhantes com o paradigma laranja-conquistador do Reinventando as Organizações.

Será que estou controlando unilateralmente?

A primeira vez que li o livro do Schwarz, pensei: “Que isso, imagina que estou controlando a situação unilateralmente. Isso seria absurdo.” Essa percepção é comum e pode ser justificada por diversos vieses cognitivos, como a ilusão de superioridade ou o realismo ingênuo. É por isso que a prática de “sombreamento” (observar em silêncio alguém facilitar) é tão importante na facilitação. Precisamos da ajuda das outras pessoas para perceber a ineficácia do nosso comportamento.

Vou entrar aqui no confessionário e compartilhar um exemplo recente. Para isso vou utilizar o lindo diagrama de duas colunas proposto pelo Schwarz. Na direita, coloco o que foi dito e observado e na esquerda o que pensei e senti.

Contexto: Estou facilitando uma reunião de um time em um cliente enquanto consultor da Target Teal. Esta reunião tem o propósito de tratar questões trazidas pelos participantes (veja o texto sobre facilitar uma tensão de cada vez). Leia da direita para a esquerda o diagrama:

 

O que senti e pensei O que vi e ouvi
Davi: Marcos, é a sua vez. Qual é a sua tensão?
Vish, vai entrar no modo reclamão. O que será que o Jonas (diretor) vai dizer? Marcos: Estou trabalhando muitas horas e até tarde porque os clientes não param de me ligar. Isso precisa parar, não dá para aguentar esse ritmo.
Droga, ele está anulando a tensão do Marcos. Isso não é bom. Preciso fazer algo (ansiedade). Jonas: Esse é o ritmo do nosso negócio. Não tem o que fazer. Tem que aguentar.
Tá virando um debate. Vou ter que entrar em ação. E pior, a tensão já está sendo “coletivizada”. Estou com receio de confrontar o Jonas, já que a minha relação com ele não está tão boa. Acho que ele não está vendo tanto valor no trabalho de consultoria. E agora? Vou ter que falar algo. Marina: Acho que a gente está suavizando o problema. Vim de outra empresa desse mesmo setor e não era assim. Não podemos tornar isso aceitável.
Davi: Pessoal, queria lembrá-los que as tensões são sempre válidas. Temos visões diferentes aqui sobre o problema. E está tudo bem, essa ambiguidade faz parte da vida. Marcos, o que você gostaria de fazer com isso? Quer fazer algum pedido para alguém?

Análise da facilitação

Valores: Ao evitar nomear diretamente o que vejo, estou tentando controlar a situação unilateralmente. O meu medo é que ao confrontar Jonas, isso prejudique minha relação com ele e o futuro do trabalho de consultoria que estou realizando. Então eu evito a expressão de sentimentos negativos e tento agir racionalmente. Também tento vencer a conversa, pensando em uma renovação do contrato de consultoria. Minha perspectiva de que a tensão está sendo coletivizada e que o Jonas está suprimindo a tensão trazida pelo Marcos também não é posta a prova, pois assumo que estou certo. Já engajei em todos os valores do controle unilateral, agora vamos ver as premissas.

Premissas: Parti do pressuposto de que minha visão de mundo era correta naquele momento e que de fato Jonas estava anulando a tensão do outro (premissa 1). Também não consegui perceber como minha atitude poderia estar contribuindo para o problema (premissa 2). O fato de não dizer explicitamente que observava o Jonas anulando a perspectiva do Marcos e tratar como uma mensagem genérica ao grupo (“Pessoal, queria lembrá-los…”) não dá a oportunidade a ele de refletir sobre o seu comportamento e de eu testar a minha inferência (outras percepções sobre isso são possíveis).

Comportamentos: Não consultei a perspectiva de outras pessoas sobre o que estava acontecendo (comportamento 1). Deixei de compartilhar meu sentimento, que era ansiedade (2). Falei de forma genérica para o grupo ao invés de nomear as pessoas (3). Agi sobre inferências não testadas (6) e evitei um possível conflito com o Jonas (8).

Esse foi apenas um pequeno recorte de uma facilitação minha para demonstrar com mais clareza como podemos ser inconsistentes enquanto facilitadores.

Apesar da minha intenção de ajudar o grupo, naqueles instantes em que estava facilitando eu escorreguei para o lado da manipulação, onde sutilmente privilegiei os meus próprios interesses em detrimento do desenvolvimento do grupo. E tudo bem. Como disse no início, poucas pessoas deliberadamente escolhem controlar unilateralmente, mas apenas engajam automaticamente nos comportamentos desse modelo mental.


Enquanto facilitadores, é vital estarmos atentos ao nosso comportamento e como ele influencia o grupo que nos propomos a apoiar. Parece que uma mágica começa a acontecer quando nos damos conta das nossas próprias premissas e pensamentos: conseguimos melhor ajudar os outros a também tomarem consciência dos seus. Em um próximo texto, exploraremos o modelo mental do aprendizado mútuo, que é o antídoto ao controle unilateral proposto por Roger Schwarz.

Referências

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