Se a facilitação é um convite para o grupo ampliar sua capacidade de perceber e responder, também precisamos olhar para dinâmicas disfuncionais, ou seja, aquelas que diminuem essa capacidade. Neste texto vou explorar o triângulo do drama e como lidar na facilitação com os papéis de vítima, salvador e perseguidor.

O triângulo do drama

O triângulo do drama de Stephen Karpman é um modelo de interações humanas destrutivo que pode surgir em situações de conflito. No drama os participantes assumem diferentes papéis, como vítima, perseguidor ou salvador e se engajam num ciclo que se perpetua e não resolve os problemas subjacentes. Nas palavras de Callahan (2007), “a única coisa que acontece no triângulo do drama é que envelhecemos”. 

A base do triângulo é a vítima, o papel mais poderoso. Uma boa vítima pode fazer de qualquer um ou qualquer coisa um perseguidor. A (falsa) vítima se diz incapaz de resolver seus próprios problemas e demanda que alguém intervenha para apoiá-la, buscando um salvador. Ela também acusa uma pessoa ou circunstância de ser responsável por colocá-la nesta situação, o perseguidor (Emerald, 2009). Frases da vítima comuns são “pobre de mim” ou ainda “não posso fazer nada”. A vítima não reconhece sua parcela de responsabilidade na situação que vive atualmente, e por isso sente-se “vítima”.

Algumas vítimas atuam de maneira “aparentemente” responsável. Elas parecem se comportar como adultos, porque fazem as suas tarefas, limpam a casa, cumprem com suas responsabilidades. Mas no entanto isso parte de uma motivação externa: querem mostrar para alguém (o perseguidor) que são responsáveis, porque é “a coisa certa a se fazer” ou porque alguém mandou. Essa situação, no entanto, não se sustenta porque a vítima se sente injustiçada ou então se frustra quando não obtém o reconhecimento que espera. O resultado é ela se tornar perseguidora em algum momento (Callahan, 2007).

O perseguidor assume uma atitude autoritária, agressiva e culpa a vítima pela sua situação. Sua motivação oculta é que geralmente percebe na vítima algo de si próprio, por isso assume essa atitude e oculta de si próprio sua insegurança (Emerald, 2009). Ao culpar a vítima não precisa lidar com os seus próprios problemas. A vítima e o perseguidor alternam os seus papéis frequentemente, já que geralmente o perseguidor quando vê o seu próprio comportamento autoritário se sente culpado e se vitimiza. A vítima também ao ser oprimida sente vontade de se vingar e passa a perseguir a pessoa que antes era seu perseguidor. 

O salvador aparece como uma resposta à postura da vítima. Suas motivações são nobres na superfície e ele oferece “ajuda” à vítima, geralmente esperando algo em troca (reconhecimento, por exemplo). O salvador sente-se culpado se não ajuda a vítima e quando não obtém o que espera na relação tornar-se o perseguidor. 

Em primeiro momento parece que o papel do salvador é justificável (assim como todos os papéis do drama), mas se analisarmos a fundo perceberemos que ele parte da mesma premissa do perseguidor. Tanto o salvador quanto o perseguidor avaliam que “estão bem”, enquanto que a vítima “não está bem”. Essa é a assimetria do triângulo: a vítima está numa situação de inferioridade, os outros dois papéis são superiores.

Disfunções do drama

A grande ilusão do drama é que a situação vai mudar. Ele é baseado em uma lógica de escassez, ou seja, os participantes acreditam que não há recursos para todos, e portanto cada um tem que agir por si próprio (Callahan, 2007). Nesse sentido, se assemelha ao modelo do “Controle Unilateral” do Roger Schwarz que já abordamos no texto sobre manipulação

O triângulo do drama de Karpman faz parte de uma área da psicologia chamada *Análise Transacional*, que estuda os diferentes jogos psicológicos que se desenrolam nas relações. O fundador da AT chama-se Eric Berne, e também criou outra lente bastante conhecida, chamada de 3 modelos de estados de ego – pai, adulto e criança natural ou adaptada.

Nenhum papel do triângulo do drama assume responsabilidade pelas suas necessidades e sentimentos. Também não percebem sua contribuição para a situação e utilizam a culpa para ocultar a si próprio. Nesse sentido essa dinâmica oculta mais do que revela, e por isso ela é tão ofensiva quando consideramos o objetivo da facilitação.

Quando tomei contato com o triângulo pela primeira vez, entendi que era necessário 3 pessoas para que a dinâmica se estabelecesse. Depois ficou mais claro que 2 pessoas eram suficientes, dado que os papéis alternavam e que não era necessário ter os 3 papéis simultaneamente, mas apenas as duplas vítima-perseguidor ou vítima-salvador. Mais tarde então percebi que o mínimo necessário não são 2 pessoas, mas 1 só. Ao prestar atenção nos meus conflitos internos, eu mesmo posso por vezes me colocar no papel de vítima, e também “salvar-me” com algum tipo de recompensa que me mantenha nesse lugar irresponsável. 

Atenção com a falácia dos modelos

O triângulo do drama, como qualquer outro modelo, é uma representação incompleta e limitada da realidade. Por isso ele está sujeito a um mal uso, que na minha perspectiva seria uma tentativa de diagnosticar e classificar as pessoas, reduzindo elas aos papéis do drama. O ser humano é muito mais do que um papel, a realidade (númeno) é muito mais do que qualquer tentativa de compreendê-la (fenômeno). Leia sobre a falácia dos modelos para entender mais.

Exemplos

Numa reunião de um grupo que está experimentando autogestão, João traz uma proposta para criar um acordo que dá exclusividade ao time dele sobre relacionamento com instituições financeiras, o que implica que outros times da organização terão que pedir permissão para ele antes de se relacionar com estas organizações.

A facilitadora do grupo, Cristina, dá espaço para que os demais participantes façam perguntas de esclarecimento e ofereçam sugestões ao João. Depois disso, ela abre uma rodada de objeções, que na autogestão representam um motivo pelo qual a proposta não é segura o suficiente para ser aprovada.

Paulo levanta uma objeção, dizendo que a forma como a proposta está escrita causa confusão, sendo que ele não sabe ao certo que tipos de situação ele deve pedir permissão para o time do João. Cristina relembra os critérios de objeções válidas – um acordo do grupo – e Paulo conclui que sua objeção é pertinente e que deverá seguir em frente para a etapa de integração (é um momento em que Paulo deve sugerir uma contraproposta). 

Nessa hora a facilitadora se sente muito desconfortável, porque um conflito se instalou no grupo e o clima está tenso. Ela fica preocupada com a exposição que esse processo está gerando para o Paulo e decide intervir. Ela diz: talvez a gente devesse tratar isso em outro momento… Já se passou 1h e existem outras pautas para a reunião. Algumas pessoas se posicionam a favor de continuar, outras contra. A facilitadora resolve então deixar de lado a proposta e pede para João tratar por fora da reunião diretamente com Paulo. João fica furioso que sua questão não foi tratada, Paulo sente-se frustrado por ter interrompido o processo e ser o “culpado” por a proposta não seguir em frente.

Eu estava nessa reunião observando a situação e minha leitura é a seguinte:

  • Salvadora: Cristina ficou preocupada com a exposição do Paulo e para salvá-lo não seguiu até o final da integração. Também se sentiu constrangida e responsável pelo “climão” que o conflito revelou. 
  • Vítima: João sentiu-se exposto pelo processo (mencionou isso algumas vezes). Talvez estivesse buscando algum tipo de proteção. Não sei se ele se enxergava como vítima, mas certamente a Cristina estava vendo-o dessa forma.
  • Perseguidor: O grupo todo, e em alguns momentos específicos, o próprio Paulo que levantou a objeção eram os vilões da história, que a salvadora buscava combater para resgatar a vítima. 

Evitando o drama

Para evitar o drama é necessário tomar consciência de si próprio e reconhecer suas necessidades e motivações. Quando enxergamos o outro como incapaz, inferior ou superior a nós, também estamos engajando no drama e vivendo uma situação desequilibrada. Por isso que a vítima está “abaixo” do perseguidor e do salvador na representação gráfica do triângulo: justamente para simbolizar essa assimetria na relação.

Depois que entramos em contato com o triângulo, é comum enquadrarmos as pessoas nos papéis durante as inúmeras situações que vivemos no trabalho e na vida pessoal. “Olha aí essa pessoa se comportando como vítima”. Com o tempo me dei conta que se eu passasse a agir a partir desse julgamento sem questioná-lo, eu mesmo entraria no drama. Quando enxergamos alguém como vítima, incapaz de gerenciar sua própria vida, é muito provável que nos tornemos o perseguidor ou salvador dessa pessoa.

Para mim dois passos são importantes para fugir do triângulo do drama:

Conexão: Para escapar dessa postura preciso sustentar uma perspectiva positiva e empática com a pessoa que percebo inicialmente como vítima. Primeiro eu penso: Olha aí essa pessoa se comportando como vítima. No instante seguinte já tento: Não, espera aí. Essa pessoa está apenas tentando atender suas necessidades. Quando nos damos conta que todo o comportamento disfuncional é apenas uma tentativa automática e desastrosa de sair do drama, e que aquela pessoa está precisando de algo que nós também já precisamos em algum momento (compreensão, afeto, escuta, aceitação, etc), estabelecemos essa conexão. 

Distinção: Depois que consigo me conectar com a pessoa que antes classifiquei como vítima, eu posso também avaliar se a postura dela me causa algum tipo de incômodo. Se sim, é possível que eu também tenha alguma necessidade não atendida – algo que me falta na relação, talvez. Nessa hora eu traço uma distinção entre o que eu preciso e o que ela precisa, o que é meu e o que é dela. Feito isso é mais fácil eu perceber se tenho condições de oferecer algum tipo de ajuda legítima a ela ou não. 

Esse processo que acabei de descrever é exatamente o mesmo que utilizo na facilitação para distinguir uma necessidade da outra e facilitar uma tensão de cada vez.

Triângulo da emancipação

Alguns autores propuseram soluções para o triângulo do drama. Há uma delas que gosto bastante e inclusive recomendo a leitura do livro. Chama-se “The Empowerment Dynamic”, que traduzo aqui como “triângulo da emancipação”. Também se apresenta na forma de um triângulo e possui 3 papéis antagônicos ao drama, que resumo a seguir:

Criador (creator): Antagônico à vítima, o criador é uma pessoa que passa por uma situação desafiadora, mas sustenta uma postura de autorresponsabilização. O criador percebe que é também autor do seu próprio momento (e da vida) e reconhece sua capacidade de criar o seu futuro a partir do que percebe. O criador pode procurar apoio de um mentor ou desafiador para isso.

Desafiador (challenger): Antagônico ao perseguidor, o desafiador provoca o criador trazendo perspectivas novas e valiosas para os problemas que o criador enfrenta, nem sempre confortáveis. Revela a verdade que enxerga nua e crua, não com o objetivo de punir o criador, mas no sentido de fortalecê-lo e provocá-lo. Difere do perseguidor porque tem consciência de si próprio e oferece aquilo que acredita que verdadeiramente pode apoiar o criador no seu percurso. Quando comparado ao questionador, sua tônica está mais em revelar coisas do que perguntar.

Questionador (coach): Antagônico do salvador, o mentor ajuda o criador a partir de ricas explorações. Ele faz perguntas abertas que permitem o criador obter mais clareza e explorar nuances das suas questões. Muitos terapeutas se encaixam bem nesse papel. É diferente do desafiador, porque suas intervenções estão mais concentradas em perguntar do que revelar coisas.

O triângulo da emancipação representa uma mudança sutil, porém fundamental em relação ao drama. Acredito que conseguimos nos engajar nele quando nos conectamos com o outro e distinguimos nossas necessidades, como descrevi no bloco anterior. 

Como facilitar o drama

Assumindo que a dinâmica dramática também se manifesta em interações de times, como podemos facilitar esses momentos em que percebemos o triângulo acontecer?

Escute e ofereça empatia: A conexão empática com as pessoas envolvidas no drama é fundamental. Por isso, fazer perguntas de verificação, paráfrases e revelar sentimentos e necessidades pode ser útil. No exemplo anterior: Cristina, me parece que você ficou preocupada com o constrangimento que o processo pode estar gerando no Paulo e está preferindo adiar essa decisão. É isso ou perdi algo?

Esclareça necessidades: No drama as tensões e necessidades das pessoas estão misturadas, por isso distingui-las é fundamental. No exemplo anterior: Cristina, parece que você está apreensiva em optar por um caminho que não permita que outras pessoas possam tratar das suas questões nesta reunião, certo? Paulo, vejo que você está frustrado com o caminho que a Cristina escolheu porque gostaria que essa decisão fosse tomada hoje. 

Quando trabalho com reuniões estruturadas e uma pauta dinâmica, sempre inicio cada item da pauta perguntando: o que você precisa, fulano? Depois que a pessoa fala, tento parafraseá-la, dizendo que tipo de interação parece que ela espera do grupo naquele momento. Me parece que você gostaria de ouvir a opinião das pessoas aqui sobre isso, certo? Ou ainda: Entendi que você quer apenas comunicar isso e dar ciência para todos que podem te procurar caso um problema aconteça. Caso a pessoa não tenha deixado isso claro, pergunto: O que você espera das pessoas nesse grupo aqui e agora? Essa estrutura de facilitação é uma forma de prevenir o drama e já elaboramos melhor no texto sobre uma tensão de cada vez.

Localize o narrador na história: Quando alguém está engajando no triângulo do drama, geralmente conta uma história como se não fosse participante dela. É como se a pessoa vivesse um problema mas não conseguisse reconhecer que esse problema é também dela. Uma forma de lidar com isso é fazer perguntas que ajudem a “localizar o narrador na história”: Onde está você nessa história? Como isso te afeta? O que é importante para você? Qual é o seu interesse?

Ajude a expressar pedidos: Perseguidores e vítimas costumam demandar coisas dos outros, na forma de exigências ou pedidos velados. Uma exigência é quando espero que o outro faça algo sem dar condições dele dizer não. Se eu dissesse: “Paulo, você tem que sustentar a sua objeção até o final” estaria fazendo uma exigência. Um pedido velado é quando uma pessoa espera que alguém faça algo mas não nomeia isso (e portanto não se responsabiliza). Típico das vítimas. Seria bom se tratássemos essa objeção depois… Uma forma de tornar o pedido velado é coletivizando ele, como acontece no fenômeno a-gente-tem-que. Ao ouvir exigências ou pedidos velados, tente traduzi-los como pedidos. Estou entendendo que você gostaria que o Paulo sustentasse a objeção dele até o final, correto? Paulo, como é isso para você? Quando você diz que seria bom se tratássemos essa objeção depois, isso é uma sugestão para a facilitadora ou outra coisa?

Conclusão

Lidar com drama começa por reconhecermos quando ele acontece, especialmente com nós mesmos. Ao conseguirmos estabelecer essas distinções, entre eu e o outro, os diferentes atos de fala de uma conversa, as necessidades envolvidas, exigências e pedidos velados, podemos ajudar os outros a também enxergá-las. E quando todos enxergam, torna-se mais fácil e desejável uma intervenção, propor por exemplo tratar um ponto de cada vez, assumir a responsabilidade pelos nossos atos, ter conversas difíceis, etc. E isso já é um aumento da capacidade do grupo de perceber e responder, que é o grande objetivo da facilitação.

Referências

EMERALD, David. The Power of TED (The Empowerment Dynamic). Polaris Publishing Group, 2009.

CALLAHAN, Clinton. Radiant Joy, Brilliant Love: Secrets for Creating an Extraordinary Life and Profound Intimacy with Your Partner. Hohm Press, 2007.

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Sobre o(a) autor(a): Davi Gabriel Zimmer da Silva

Davi é designer organizacional e facilitador na Target Teal, especializado em melhorar interações entre times e indivíduos no ambiente corporativo. É pioneiro na prática de Holacracia no Brasil e co-autor da Organização Orgânica, uma abordagem brasileira para autogestão. Davi é formado em Sistemas de Informação pela UNISINOS e pós-graduado em Psicologia Positiva pela PUCRS. É amante dos temas desenvolvimento humano e de organizações, produtividade, futuro do trabalho e cultura organizacional.

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