Em textos passados aqui no site da Target Teal falamos sobre como podemos, enquanto facilitadores, nos envolvermos em um processo de aprendizado mútuo com o grupo. Mais do que certezas e uma perspectiva de levar o grupo a algum lugar, lidamos com o que emerge. A partir dessa perspectiva que valoriza a curiosidade genuína, fazer boas perguntas se torna essencial. Hoje vou trazer alguns aprendizados valiosos do nosso campo de prática sobre a arte de perguntar.

Perguntar é algo que está presente o tempo todo na nossa comunicação. Seja em conversas, reuniões, interações com a família, na terapia e até com a gente mesmo. O que eu observo é que diferentes tipos de perguntas podem levar as conversas para lugares bem distintos. Uma pergunta também tem o poder de estimular determinadas reações e emoções nas pessoas. E às vezes, até uma pergunta feita com a melhor das intenções bagunça tudo.

Parece que algumas perguntas constroem um espaço dialógico, de compreensão do outro, enquanto que outras desafiam as pessoas e chamam para um debate acalorado. Também vejo que algumas perguntas obscurecem situações, intenções, sentimentos, enquanto que outras revelam. Então convido você a analisarmos melhor isso e revelar os diferentes tipos de perguntas que podem estar presentes nas nossas interações.

Este texto é um resumo de um artigo mais completo que você pode baixar aqui.

Tipos de perguntas

Criamos uma sistematização de diferentes tipos de perguntas, hoje com 7 categorias, agregadas em 3 grupos:

  1. Perguntas facilitadoras
    1. Exploratória
    2. Verificação
    3. Conclusiva
  2. Perguntas obscuras
    1. Retórica
    2. Manipulativa
  3. Outros tipos
    1. Pedido
    2. Interjeição.

Neste texto abordaremos a pergunta exploratória e a retórica.

Perguntas facilitadoras

Vamos começar com as perguntas facilitadoras, que recebem esse nome por julgarmos mais desejáveis em um contexto de facilitação. Elas possuem 2 atributos importantes: são genuínas e reveladoras. São genuínas porque quem pergunta está de fato querendo obter uma informação nova, e não querendo reforçar algo que já é conhecido. São reveladoras porque sua forma geralmente revela a intenção mais do que oculta.

Perguntas Exploratórias

A principal delas é a exploratória. Uma pergunta exploratória é aquela que busca genuinamente compreender um indivíduo ou situação. Ela é bastante utilizada em discussões e diálogos (saiba mais aqui sobre os 4 tipos de conversa). Exemplos:

  • Como você se sentiu?
  • O que você pensa sobre isso?
  • Qual é a sua intenção ao propor essa mudança?
  • Como seria para você se eu fizesse dessa forma?

A forma da pergunta exploratória é aberta, sempre incluindo um pronome interrogativo ou advérbio interrogativo. Uma boa pergunta exploratória também é precedida de uma declaração de intenção antes. Recentemente, perguntei ao meu colega Barón: “O que te levou a organizar os fazeres da facilitação em forma de uma bússola, Barón?”. A minha intenção com essa pergunta era entender melhor as origens da bússola de facilitação, mas também questioná-la. Em seguida acrescentei: “Pergunto isso porque acho que outras metáforas podem ser mais interessantes do que a bússola, mas antes queria ouvir um pouco mais sobre as origens dela, porque pode ser que tenha algo que não percebi”. Com essa declaração de intenção, estou sendo mais explícito e revelando o que se passa dentro de mim.

Existem também casos em que as perguntas exploratórias não são apropriadas. Imagine que você está em uma reunião e se sente desconfiado com relação a uma pessoa. Sua inferência é que ela esteja ocultando algo. Então você pergunta: “Qual é a sua intenção ao propor essa mudança?”. Neste caso, é melhor compartilhar essa percepção e validar a inferência com uma pergunta de verificação antes. Ou seja, este contexto e intenção não favorecem o uso da pergunta exploratória.

Perguntas obscuras

As perguntas obscuras são aquelas que não revelam com clareza a intenção do perguntador ou que possuem uma forma que gera confusão. São perguntas que para nós fazem menos sentido em um contexto de facilitação, justamente porque facilitar é revelar. Leia com calma, mas não se culpe se perceber usando elas. Muitas vezes elas se apresentam como vícios de linguagem e até caracterizam o estilo de comunicação de uma pessoa. Pode ser difícil mudar o jeito que você pergunta, ou talvez você nem queira. O ponto: fique atento aos possíveis efeitos adversos do uso de perguntas obscuras. Neste texto abordaremos as retóricas, talvez o tipo mais comum de perguntas obscuras.

Perguntas Retóricas

As perguntas retóricas são sugestões com um ponto de interrogação no final. Você já deve ter ouvido elas antes:

  • Você não acha que seria melhor considerar a opinião do grupo?
  • Não seria mais útil decidirmos em conjunto?
  • Seria útil refletir sobre o impacto que este projeto terá?

Quem faz uma pergunta retórica já conhece a resposta, portanto não é uma pergunta que busca obter informações, mas influenciar, sugerir ou provocar o interlocutor.

Quando a intenção do perguntador é verificar se existe uma concordância, a pergunta retórica pode se confundir com a de verificação, por exemplo:

Você não acha importante analisarmos as métricas antes?

E é aí que mora o problema das perguntas retóricas, ou mais especificamente sobre esta forma de perguntar. Não tem como saber apenas pela forma da pergunta se a intenção do perguntador é verificar concordância, influenciar o outro ou conhecer a perspectiva dele sobre um assunto. A forma não ajuda. No lugar disso, transforme a pergunta retórica em uma genuína (que pode ser de verificação ou exploratória) ou simplesmente afirme o que você gostaria de afirmar!

  • Eu acho que é importante analisarmos as métricas antes.
  • Eu gostaria que você considerasse analisar as métricas antes.
  • Eu acho que é importante analisarmos as métricas antes. O que você acha? (exploratória)
  • Eu entendi que você prefere analisar as métricas antes. É isso? (verificação)

O obscurecimento causado pela pergunta retórica pode ser observado na prática. Geralmente quem escuta uma pausa alguns segundos para responder. Os defensores delas argumentam que a pergunta “provocou” a pessoa e que ela está refletindo. Mas para mim é mais simples: a pessoa está confusa tentando decifrar qual é a intenção do perguntador, pensando em que tipo de resposta ele quer receber.

Como desenvolver a arte de perguntar

Conhecer os diferentes tipos de pergunta é só o primeiro passo para se desenvolver na arte de perguntar. É o primeiro, mas importante. Tomar consciência sobre a forma com que interagimos e perguntamos é o início de um processo de evolução da prática da facilitação.

Para ampliar ainda mais essa percepção, você pode fazer um exercício simples (mas difícil). Logo após os momentos que você facilitar conversas, tente responder:

  1. Que perguntas foram feitas durante essa conversa?
  2. Que intenções eu tinha ao fazer cada pergunta que fiz?
  3. Como essas perguntas afetaram as interações?
  4. Que mudanças eu teria feito nas minhas perguntas para melhorá-las?

Às vezes a memória falha, então se for uma reunião online e gravada, aproveite esse recurso tecnológico para revisitar a conversa e perceber melhor o que aconteceu. Especialmente para aquelas mais difíceis.

Observar os nossos próprios pensamentos e suspender pressupostos também ajuda a fazermos mais perguntas exploratórias e de verificação. Para conseguirmos melhor compreender o outro, é necessário um tipo de espaço interno que me parece só ser possível quando também conseguimos nos compreender. Olhar para si próprio é fundamental no facilitar.

E acima de tudo, tempo, reflexão e prática vão te ajudar a refinar a sua capacidade de fazer perguntas facilitadoras.

Este texto é um resumo de um artigo sobre “A arte de perguntar” que você pode baixar aqui.

Referências

  • Diálogo: comunicação e redes de convivência – David Bohm (2005)
  • Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais – Marshall Rosenberg (1999)
  • The Skilled Facilitator: A Comprehensive Resource for Consultants, Facilitators, Managers, Trainers, and Coaches – Roger Schwarz

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