Desde o momento que comecei a trabalhar com design organizacional, estive em busca de melhorarmos a nossa relação com o poder dentro de organizações. Por algum motivo, a ideia de uma figura de autoridade (um chefe, um líder de Estado, um ditador) ainda me causa muito repúdio. Talvez até por enxergar um pouco disso em mim mesmo. Bem, a partir do momento que comecei a estudar o Evolutivo-Teal e novas tecnologias sociais também me interessei pelo tema poder e autoridade no nível social. Se podemos descentralizar as empresas, podemos descentralizar a nação também, certo?

Minha busca me levou a entrar em contato com o tema da não-violência, promovidos por Gandhi, Marshall e outros pensadores relevantes. Foi daí que me interessei pelo anarquismo, que prega justamente o uso da não coerção. Se olharmos para o nosso Estado-nação, o uso da força está sempre presente. Se desrespeitamos as leis, somos punidos (ok, às vezes). Os comandos estatais começam prejudicando o seu bolso (taxas e multas), mas o último deles é pegar o seu corpo físico contra a sua vontade e jogá-lo numa cela (em alguns países, infelizmente, matá-lo). Se você desrespeitar a autoridade soberana, você será punido. O livro The Problem of Political Authority aborda bastante esta questão do monopólio do uso da força do Estado pela perspectiva moral.

Falando do livro, fiquei encantado com a sociedade hipotética sem Estado descrita pelo autor Michael Huemer. Por mais utópica que pareça, é interessante porque aponta um caminho. Daí fui buscar livros de literatura que explorassem ainda mais esse tema de uma sociedade livre do poder centralizado. Afinal, a realidade imita a ficção. Encontrei uma obra-prima de 3 volumes entitulada The Golden Age. É um livro de ficção científica hardcore, mas que trouxe muitos insights interessantes, inclusive do mundo organizacional. Já vou explorar eles com você.

Toda a narrativa acontece dezenas de milhares de anos no futuro, em uma sociedade chamada de Ecúmeno Dourado, que já se espalhou por todo o sistema solar. Os humanos são coisas do passado, e agora existem diversas “neuroformas” (formatos de consciência). Quase todos são imortais e imensamente ricos, graças à tecnologia. Phaethon, o protagonista, faz parte da elite poderosa que vive boa parte das suas interações em simulações computacionais ou então viajando pelo mundo em seus manequins que permitem telepresença. Nesta sociedade futurista e descentralizada, 90% dos recursos são controlados por inteligências artificiais extremamente racionais, denominadas Sophotechs. Existe um parlamento e uma corte, mas 99% dos casos são solucionados por simulações ou trocas de consciência (você pode assumir a perspectiva da outra pessoa e compreender as suas necessidades, tornando assim muito fácil a resolução de conflitos). Para ter uma ideia, fazem milênios que não ocorrem crimes. De fato, apenas coisas que envolvem o uso da força contra alguém são crimes nesta sociedade. Muitas coisas são imorais, mas poucas são criminalizadas.

No Ecúmeno Dourado, toda a força militar é representada por apenas um ser, chamado General Atkins. Por conflitos envolvendo Phaethon, em algum momento (não vou contar os detalhes) Atkins é “acordado” para trabalhar. Todos esqueceram que ele existe (dorme há muitos anos) e é curioso que palavras como “arma” e “guerra” não estão no vocabulário dos cidadãos dessa era dourada. O que me deixou bem curioso foi uma fala dele para o protagonista, no segundo livro da trilogia:

Com todo o respeito, minha tradição é mais antiga que a sua, mais antiga que qualquer outra. Minha profissão foi a primeira que o homem criou, e será a última a deixar de existir. É a que torna todas as outras [profissões] possíveis.

Só em uma segunda leitura que consegui perceber a relevância deste ponto.

O poder soberano sempre estará lá, para garantir que a liberdade seja possível. Muitas vezes esse poder é formado a partir de um contrato social, construído pelas partes de forma voluntária. E ele forma uma hierarquia, pois divide aqueles que têm poder (neste caso, Atkins) dos que não têm (cidadãos comuns). Enquanto houver a necessidade de coordenação entre pessoas em larga escala (uma sociedade), haverá uma autoridade soberana para forçar os fundamentos, o código moral e as regras básicas sociais. A própria regra de “não infrinja a liberdade do outro” não escapa disso. Nem o Ecúmeno Dourado escapou.

Não pude deixar de relacionar isso com o mundo organizacional. Nos trabalhos da Target Teal, buscamos mecanismos de distribuição de autoridade. Mas isso não anula a existência do poder. Isso simplesmente o suspende, para que a auto-organização seja possível. Na Holacracia há uma Constituição. No O2 existem os Meta-Acordos. Alguém assina, alguém sustenta este espaço, e as regras também o fazem. Existem limitações legais (o fato de uma empresa precisar de um dono), mas mesmo que possamos criar novas entidades empresariais mais distribuídas, um processo decisório será necessário. Este processo é soberano, e amparado por um Estado-nação que exerce essa força sobre a sociedade.

Só poderemos escapar da hierarquia (no sentido de diferenciação de autoridade) se não houver nenhuma necessidade de troca entre os agentes. Duas civilizações em planetas distintos que ainda não se encontraram não teriam acordos sobre autoridade, porque não existe necessidade de coordenação entre elas ou de divisão de recursos. Países formam acordo, blocos econômicos e assinam tratados para estabelecer hierarquias e possibilitar a coordenação, mesmo sem um governo mundial aparente. O próprio Bitcoin, apesar de ser descentralizado, possui um único protocolo (soberano) que é executado por todas as máquinas.

Ao relacionar com o modelo dos estágios de Laloux, percebi de forma ainda mais clara como o Evolutivo-Teal “integra” as perspectivas anteriores. A hierarquia e o poder são tecnologias sociais criadas pelos estágios Conformista e Conquistador. No Pluralista, estes aspectos são ignorados em busca da igualdade e do poder compartilhado. E esta é justamente a ruína do Pluralista-Verde: sua incapacidade de compreender que não é só necessário incluir, mas também excluir. Tanto o poder centralizado quanto descentralizado precisam ser integrados. É verdade que as organizações hoje estão mais pendendo para o lado da hipercentralização, e por isso vemos uma grande polarização para o lado da descentralização. Mas existe um equilíbrio. A centralização não pode ser ignorada por completo, porque isso implicaria no desmembramento da organização. Por definição organizações centralizam coisas. Senão, operaríamos apenas com o formato de redes.

Minha conclusão é que sim, existe espaço e valor para a hierarquia e a autoridade, dentro e fora das organizações. Mas quando me refiro a hierarquia, falo da diferenciação e do reconhecimento de diversos níveis de autoridade, e não a ideia de cadeia de comando militar que importamos para o mundo corporativo. Podemos criar estruturas legais, sociais e organizacionais que minimizem os impactos negativos da autoridade, mas ela sempre estará lá. A auto-organização sempre acontece dentro de contornos definidos. E alguém ou algo precisa definir os contornos. Estas são minhas conclusões preliminares sobre esse tema. Estou também curioso para saber como você vê tudo isso. Por favor, comente abaixo. 🙂