As sombras do movimento ágil

Antes de qualquer coisa, vou confessar que também sou Agile Coach. Investi boa parte da minha energia nos últimos anos ajudando times, grupos e organizações a se tornarem ágeis. Seja entregando valor mais rápido, trabalhando melhor ou apenas sendo mais felizes. O movimento ágil teve um papel importantíssimo na minha jornada. Sem o ágil, eu provavelmente nunca estaria na Target Teal.

Mas nem tudo são flores. O ágil, assim como qualquer grupo ou tecnologia social, tem as suas sombras. O que eu venho observando, no entanto, é que pouco se fala sobre isso na comunidade.

Talvez alguns agilistas não queiram tocar no assunto. Ou talvez muitos nem tenham conhecimento dessas sombras. Minha esperança com esse post é jogar luz nelas e conversar mais a respeito.

E a primeira sombra é…

Extrema valorização do time

O movimento ágil coloca um grande peso no conceito de time. Se você precisa tomar uma decisão que pode mudar o rumo do produto, leve para o time. Se alguma tecnologia nova precisa ser testada, leve para o time. Se você tem um problema com o coleguinha, leve para a retrospectiva. Em muitos grupos que se intitulam ágeis, diversas questões devem ser levadas para discussão com o grupo, sob o risco de você ser socialmente excluído por não fazer isso. Nesse caso você não sabe trabalhar em equipe, como já ouvi.

Essa supervalorização se manifesta na relação com outras áreas da organização também. O foco excessivo em construir um time de alta performance pode levar à competição entre grupos, otimização local, ingroup bias e fortalecer os silos. Silos que antes do ágil eram funcionais, mas agora são multidisciplinares. Que grande avanço. Resultado: diversos “times de alta performance” e uma organização disfuncional.

Recentemente estava em uma conferência conversando com outras pessoas sobre como levar os benefícios do ágil a outras partes da organização. Um agilista então me disse: Interessante, mas isso não me interessa. Se o time está entregando valor, é isso que importa. Ok, mas onde entra o resto da organização???

Outra consequência da supremacia do coletivo que vejo é o conceito de responsabilidade compartilhada. Em um time ágil, geralmente todos são responsáveis por tudo. Não existe divisão clara de papéis dentro do time de desenvolvimento. O que acontece? Muitos assuntos discutidos em reuniões de retrospectiva acabam virando uma lista de intenções e compromissos que nunca se concretizam.

Além disso, Agile Coaches e Scrum Masters colocam tremenda energia em atividades de team building com o objetivo de fortalecer essa identidade de time. Ah, e o time não pode mudar a sua composição interna, senão o trabalho irá todo para o ralo… Pena que o mundo é volátil e isso sempre acaba acontecendo.

O ágil bota tanta ênfase no time que esquece a organização e os indivíduos. Só os times possuem autonomia. O indivíduo não. Ou seja, a entrega de valor do grupo é otimizada, mas não a da organização.

Falta de acordos claros sobre o uso do poder

A segunda grande sombra do ágil é certamente a falta de acordos no que tange poder e autoridade. Acredito que isso acontece porque qualquer traço que lembre o velho mundo tradicional – processos, contornos e divisão de responsabilidades – será prontamente descartado pelos agilistas de carteirinha. E provavelmente tachado como “burocracia” e “engessamento”.

No entanto, já sabemos que a falta de estrutura e clareza de autoridade tem um efeito terrível sobre grupos. O texto “A Tirania das Organizações sem Estrutura” retrata bem esse assunto. Todo e qualquer grupo possui uma estrutura de autoridade, seja ela explícita ou implícita. Os times ágeis auto-organizados encaixam-se bem na categoria da estrutura implícita, pois em geral poucos acordos de responsabilidade individuais são feitos.

Reuniões morosas e lentas

Times ágeis sabem como entregar valor para o cliente rapidamente e em ciclos curtos de feedback. Mas isso só funciona da porta para a fora…

A falta de estrutura e processos decisórios também traz outro efeito colateral: diversas reuniões morosas e lentas. Sprint Planning de 4h? Um inferno. Retrospectivas? Importantes, mas muitas vezes pouco efetivas.

Os times comumente têm discussões infinitas, sem conseguir entrar em consenso sobre que caminho seguir. Veja essa história:

Éric sabia que a tecnologia X sendo usada pelo time precisava ser alterada para evitar problemas futuros de dívida técnica. Ele trouxe diversas vezes para a reunião de retrospectiva a alternativa A, mas o time não conseguia seguir em frente com a decisão, apesar de concordar que o problema era real e X realmente não servia. Bob e Karen preferiam a alternativa B, que também tinha vantagens e desvantagens em relação à alternativa A que Éric trouxe.

Fernando, o facilitador e Agile Coach, sabia que se ele forçasse a barra na decisão, obrigando os participantes a seguirem em frente mesmo sem estarem confortáveis, o resultado seria ainda pior. A identidade do time seria prejudicada, pois a decisão não seria compartilhada.

Depois de diversos encontros sem sucesso, Éric desistiu de conversar com o grupo sobre o assunto.

No final das contas, quem saiu no prejuízo foi a organização. Depois de alguns meses já era tarde demais para fazer qualquer alteração, pois o custo da mudança seria alto demais. Muito código havia sido criado em cima da tecnologia obsoleta.

O ego individual escondido no coletivo

Se eu tivesse que apontar qual a maior sombra de todas, com certeza seria essa.

Faça um experimento. Na sua próxima reunião de retrospectiva, anote a quantidade de vezes que a palavra “nós” ou uma referência ao grupo como um todo aparece. Também anote a quantidade de vezes que a palavra “eu” ou uma referência individual aparece. Você vai ficar assustado com a desproporção.

E por que isso é ruim? O time, o coletivo ou o “nós” é uma entidade abstrata que criamos para facilitar a comunicação. Mas a real é que esse “nós” não existe. Um grupo não possui vontade própria. O que acontece é que muitas vezes as pessoas usam desse suposto “ser coletivo” para manifestar uma vontade/necessidade individual. Por exemplo, Éric poderia dizer:

Nós precisamos alterar a tecnologia X para a alternativa A, porque isso trará benefícios para nós como time no futuro.

Isso pode ser verdade. Mas saiba que Éric também tem ganhos individuais nessa decisão, como o de programar em uma linguagem que ele curte. Talvez ele tenha dificuldade em falar na primeira pessoa, pois isso faria o grupo suspeitar das suas intenções…

Essa vontade individual é legítima, sem dúvidas. O que não é funcional é escondê-la com argumentos racionais atrás de uma suposta vontade coletiva… E a extrema valorização do time, promovida pelo movimento ágil, intensifica esse efeito.

O movimento ágil na escala de desenvolvimento de organizações

Como você já deve saber, gostamos muito dos estágios de desenvolvimento de organizações identificado pelo Frederic no livro Reinventando as Organizações. E mesmo que seja difícil enquadrar uma empresa no paradigma X ou Y, entendemos que o movimento ágil se encaixa bem no quarto estágio: as organizações pluralísticas.

Vejam só essa descrição:

Essas empresas buscam criar um ambiente centrado na cultura e nos valores, gerando valor não só para os acionistas, mas para os clientes e as pessoas que lá trabalham.

É comum existir um movimento de horizontalização da estrutura e empoderamento dos times. O objetivo disso é que os grupos possam tomar decisões de forma autônoma. Muitas dessas empresas costumam investir muito em employer branding, cultivando um ambiente que seja agradável para trabalhar. A felicidade das pessoas é uma prioridade.

Elas valorizam muito a tomada de decisão em conjunto, especialmente por consenso (algumas vezes consenso por unanimidade). Em geral são investidas muitas horas em reuniões para garantir que todos sejam ouvidos. As preferências individuais são sempre consideradas.

Você pode substituir as palavras em negrito por organizações pluralísticas ou por movimento ágil. Tanto faz.

Há esperança? O que fazer?

Qualquer abordagem, método, tecnologia social ou estágio de desenvolvimento terá as suas sombras. Precisamos apenas ter consciência e desenvolver novas formas que as amenizem. Obviamente, novas sombras surgirão e teremos que lidar com elas…

O trabalho é infinito. Se quiser entender melhor que abordagens estamos usando para navegar no mundo VUCA e lidar com as sombras ágeis, veja esse post.

E você? Enxerga outras sombras no movimento ágil? Compartilhe com a gente. 🙂

Por | 2017-10-02T14:42:48+00:00 setembro 27, 2017|Ágil, Cultura|1 Comentário

Sobre o Autor:

Davi é um transformador de organizações, hacker cultural e mestre TAO da Produtividade. Não satisfeito com as mudanças realizadas em times de desenvolvimento de software como Agile Coach, resolveu abordar um problema organizacional mais profundo: a forma com que nos organizamos e distribuímos poder dentro de uma empresa. É amante dos temas desenvolvimento organizacional, produtividade, futuro do trabalho, organizações evolutivas e cultura. Davi também é fundador da comunidade brasileira de Holacracia e pioneiro na implantação do modelo no Brasil.

Um Comentário

  1. […] que um enfoque em responsabilidade compartilhada e decisões em grupo gera uma grande quantidade de sombras e […]

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