As abordagens sistêmicas têm uma rica tradição histórica. O pensamento sistêmico em termos de visões holísticas – enfatizando particularmente o relacionamento integral entre a natureza humana e a não-humana – pode ser datado até as antigas tradições do hinduísmo (por exemplo, através de textos antigos como os Upanishads e Bhagavad Gita), Budismo (tradições orais do Dharma), Taoísmo (base de acupuntura e medicina tradicional chinesa), sufismo (em traduções do Kashf al-Mahjûb de Hujwiri, e a Risâla de Qushayri), filosofia grega antiga (particularmente Heráclito e Aristóteles), além de ser predominante através das tradições orais de muitas tradições espirituais ancestrais que existem há dezenas de milhares de anos.

O termo “sistema” como reconhecido no uso contemporâneo, predominantemente nas culturas ocidentais, foi explicitamente usado pela primeira vez na filosofia européia do século XVIII enraizada na obras de Immanuel Kant (Ulrich 1983).

Eu poderia falar horas sobre como alguns povos ancestrais e a filosofia oriental abordam o pensamento sistêmico e as suas várias nuances. Mas para manter o artigo curto e objetivo vou me ater ao recorte ocidental.

O Pensamento Sistêmico não é uma “coisa” em si. Trata-se de um movimento científico, um paradigma, que começa a emergir no fim do séc XIX com Alexander Bogdanov e Ludwig Bertalanffy.

Desde então inúmeras descobertas e novos ramos da ciência sistêmica começaram a tomar forma e hoje temos uma infinidade de campos de estudo relacionados com o paradigma sistêmico. Entre eles podemos citar: Teoria das Redes, Teoria do Caos, Teoria dos Jogos, Complexidade, Cibernética e muitos outros.

Inicialmente, vou me basear no livro Pensamento Sistêmico: O novo paradigma da ciência escrito por Maria José Vasconcellos, uma pesquisadora brasileira cujo trabalho tenho orgulho em divulgar.

Para fins de compreensão didática, Vasconcellos (2010) distinguiu três dimensões do paradigma da ciência tradicional e três da ciência pós-moderna, a fim de organizar um quadro de referência.

Compreender essas nuances é essencial para compreender a nossa abordagem perante sistemas sociais.

A Ciência Tradicional

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A ciência tradicional é caracterizada pelos pressupostos da simplicidade, estabilidade e objetividade (Vasconcellos, 2010).

Simplicidade: há a crença de que ao separar o complexo em partes é possível conhecê-lo e, nessa direção, as pesquisas científicas estabelecem uma “atitude de análise e busca de relações causais lineares”.

Estabilidade: refere-se à crença de que o mundo é estável, ou seja, que há regularidade e ordenação, cujo funcionamento pode ser conhecido, controlado, previsto, explicado a partir da formulação de leis explicativas sobre os fenômenos.

Objetividade: compreende que a realidade existe independente do observador, sendo possível conhecê- la objetivamente, sem a interferência da subjetividade do pesquisador.

A busca de leis gerais e atemporais constitui-se num dos principais objetivos da ciência tradicional (Schmidt, Schneider, & Crepaldi, 2011).

A Ciência Pós-Moderna

A ciência pós-moderna envolve ultrapassar os pressupostos da ciência tradicional, sendo caracterizada pelos pressupostos da:

Complexidade, que segundo a epistemologia desenvolvida por Edgar Morin, se sustenta em três princípios:

Dialógico: considera a realidade como multiversa, ou seja, parte da premissa de que coexistem múltiplas versões sobre os fenômenos e descarta a necessidade de que se chegue a um entendimento unificador.

Recursividade: em latim recurrere, significa tornar a correr, percorrer de novo, e alude à relação que se estabelece entre produto e produtor, ou seja, concebe que o produto é produtor daquilo que produz, inviabilizando explicações lineares e unicausais.

Hologramático: considera que a parte está no todo, assim como o todo está na parte, lógica vigente tanto no mundo biológico, como no mundo sociológico.

E além disso levamos em conta também os seguintes pressupostos:

Instabilidade: surge como revisão da ideia de mundo estável, da ciência tradicional, ao considerar que o mundo está em processo dinâmico de transformações.

Intersubjetividade: Considera a impossibilidade de se conhecer objetivamente o mundo, ao reconhecer que a realidade emerge das distinções feitas pelo pesquisador, em espaços consensuais e como construção social(Maturana & Varela, 2001; Maturana, 2014a, 2014b).

Explore este mapa para aprender mais sobre as bases do pensamento sistêmico.

Ok, mas o que é um sistema?

Um sistema é basicamente um conjunto de elementos que se relacionam entre si e acabam por formar um todo.

Vamos deixar isso mais concreto.

Se eu tiver uma mesa onde há um martelo, uma faca de passar manteiga no pão e uma frigideira… Isso é um sistema? Eu diria que não, porque esses elementos não possuem uma relação aparente.

Para caracterizar um sistema, os elementos constituintes devem se relacionar de forma interdependente.

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De acordo com Donella Meadows, todos os sistemas têm 3 partes:

Elementos

São as diferentes forças que compõem o sistema.

Interconexões

São as relações entre todos os elementos do sistema.

Propósito

Esta talvez seja a noção mais controversa. Como Meadows coloca: “os propósitos são deduzidos do comportamento, não da retórica ou objetivos declarados… Os propósitos do sistema não precisam ser propósitos humanos e não são necessariamente aqueles pretendidos por qualquer ator único dentro do sistema. Na verdade, um dos aspectos mais frustrantes dos sistemas é que os propósitos das subunidades podem resultar em um comportamento geral que ninguém deseja.”

Ou seja, “o propósito de um sistema é o que ele faz”, como diz Stafford Beer.

Características de Sistemas

Quando o sistema troca informações com o seu meio, consideramos este um sistema aberto.

Quando o sistema não possui uma interface de troca de informação com o seu meio, este é um sistema fechado.

Quando um sistema ocorre de forma espontânea e não foi intencionalmente desenhado, este é um sistema natural.

Todos os sistemas desenhados por humanos são considerados sistemas artificiais.

Especialmente em sistemas naturais, podemos observar diversas outras propriedades, tais como:

  • Não Linearidade: Você afeta a cultura da organização mas a cultura também te afeta. Uma pequena mudança pode ter um efeito devastador no sistema.
  • Adaptabilidade(Homeostase): Um sistema complexo se adaptada ao seu meio de acordo com a necessidade. Pense no seu corpo regulando a temperatura de acordo com o ambiente.
  • Emergência: É a criação de ideias, estruturas ou eventos que não são obra de nenhum agente específico do sistema mas da interação entre todas as partes. Normalmente este conceito é sumarizado com a máxima “o todo é maior do que a soma individual das partes”.
  • Auto-organização: É a capacidade de criar processos, times, políticas a partir das próprias regras internas do sistema.
  • Reprodução(Autopoiese): É a capacidade de criar outros sistemas e subsistemas a partir de si mesmo.

Pensar de forma sistêmica

Derek Cabrera propõe uma distinção interessante entre “pensar sobre sistemas” e “pensar de forma sistêmica”.

A primeira abordagem trata de buscar identificar sistemas em nosso meio visando as características descritas acima. A segunda implica olhar para o mundo de uma forma sistêmica. De fato, Cabrera insiste que os seres humanos não conseguem perceber o mundo de outra forma.

Mas o que isso quer dizer?

Cabrera oferece um modelo extremamente didático para explicar o que é olhar para o mundo de uma forma sistêmica.

 

O modelo consiste de quatro elementos básicos.

Distinções

Distinções

Perceber a diferença entre ideias. Toda vez que estabelecemos limites entre elementos estamos fazendo uma distinção entre uma coisa e o resto.

É a distinção que nos permite escolher uma coisa ao invés da outra ou provocar uma separação entre “eu” e o “outro”.

Palavras relacionadas com distinções: comparar, contrastar, definir, diferenciar, nomear, rotular, é, não é, identidade, reconhecer, identificar, existir, existencial, outro, fronteira, selecionar, igual, não igual, semelhante, diferente, igual, oposto, nós /eles, coisa, unidade, não-coisa, algo, nada, elemento, e o prefixo a- (como em amoral).

Sistemas

Sistemas

Cada coisa ou ideia é um sistema porque contém partes. Cada livro contém parágrafos que contêm palavras com letras, e letras são feitas de traços de tinta que são compostos de pixels compostos de átomos. Isso tudo forma um sistema cheio de subsistemas.

Podemos estudar as partes separadas do todo ou o todo generalizado das partes, mas para entender qualquer sistema, devemos fazer as duas coisas no final. Os sistemas parte-todo estão na raiz de uma série de termos que utilizamos nosso dia a dia.

Seguem alguns exemplos: fragmentar, agrupar, classificar, organizar, parte-todo, categorizar, hierarquias, mapear, conjuntos, agrupamentos, juntos, separados, fragmentar, combinar, amalgamar, codificar, sistematizar, taxonomia, classificar, soma total, totalidade, decompor, desconstruir, coletar, coletivo, montar. Também estão incluídas a maioria das palavras que começam com o prefixo org-, como organização, órgão ou organismo.

Relações

Identificar relações entre ideias. Não podemos entender muito sobre qualquer coisa ou ideia,ou sistema de coisas ou ideias, sem entender as relações entre as ideias ou sistemas. Existem muitos tipos importantes de relações: causal, correlação, feedback, entradas/saídas, influência, direta/indireta, etc.

Palavras relacionadas com relações: Conectar, interconexão, interação, ligação, causa, efeito, afeto, classificação, entre, entre, feedback, casal, associar e juntar; a maioria das palavras com os prefixos inter-, intra-, extra-, como interdisciplinar, intramural; a maioria das palavras com o prefixo co- como em correlacionar ou cooperar ou comunicar; e tipos de relacionamentos como linear, não linear, causal, feedback e operadores matemáticos como +, -, /, x.

Perspectivas

Perspectivas

Quando traçamos os limites de um sistema, ou distinguimos um relacionamento de outro, estamos sempre fazendo isso de uma perspectiva particular. Às vezes, essas perspectivas são tão básicas e tão inconscientes que não as percebemos, mas elas estão sempre lá. Se pensarmos sobre as perspectivas de maneira fundamental, podemos ver que elas são compostas de dois elementos relacionados: um ponto de onde estamos vendo e a coisa ou coisas que estão em vista. É por isso que as perspectivas são sinônimos de “um ponto de vista.”

Palavras relacionadas com perspectiva: Ponto de vista, ver, olhar, estrutura, ângulo, interpretação, quadro de referência, perspectiva, aspecto, abordagem, estado de espírito, empatia, compaixão, negociação, escala, mentalidade, postura, paradigma, visão de mundo, preconceito, disputa, contexto, estereótipos, inteligência pró-social e emocional, negociação, resolução de disputas; e todos os pronomes como ele, ela, isso, eu, eu, meu, ela, ele, nós e eles.

Reducionismo vs Holismo

Reducionismo

Reducionismo é a prática de analisar e descrever um fenômeno complexo em termos de partes elementares que existem em um nível mais simples ou mais fundamental. O reducionismo tenta criar uma descrição unificada do mundo reduzindo-o a um conjunto de componentes elementares a partir dos quais qualquer fenômeno pode ser explicado como uma combinação dessas partes.

O objetivo do reducionismo é uma explicação que mostra como as características de nível superior de um sistema inteiro surgem das partes elementares. Assim, os recursos de nível superior de um sistema podem ser amplamente ignorados na investigação; permitindo-nos focar nas partes de nível inferior que o constituem.

Quando falamos do reducionismo sendo aplicado ao contexto organizacional basta pensar em alguns contextos onde temos avaliação de times com base em características dos indivíduos desconsiderando os aspectos culturais da organização.

Holismo

Holismo

Holismo se refere a qualquer abordagem que enfatize o todo, ao invés das partes constituintes de um sistema. Uma compreensão holística do mundo entende qualquer fenômeno como algo que  faz parte de algum todo maior e é definido por suas relações e funcionamento dentro desse sistema mais amplo.

O que todas as abordagens holísticas têm em comum inclui o princípio de que o todo é maior do que a soma individual das suas partes e a suposição de que as propriedades do todo não podem ser explicadas pelas propriedades dessas partes – a ideia de emergência. Quando pensamos no holismo sendo aplicado ao contexto organizacional basta pensar em alguns contextos onde as organizações buscam pautar o seu desenvolvimento mais a partir de aspectos culturais e estruturais do que focar em características individuais.

Nem holismo, nem reducionismo, mas ambos

Reducionismo e holismo

É muito comum ouvir a afirmação de que o pensamento sistêmico é o oposto do pensamento mecanicista reducionista.

Isto não é necessariamente algo que está errado mas alguns autores como a Rosalind Armson e o Derek Cabrera trazem uma outra perspectiva sobre este assunto. O pensamento sistêmico faz uso de ambas visões de mundo para navegar a complexidade.

A partir do momento em que assumimos apenas uma perspectiva, seja holística ou reducionista, perdemos a visão sistêmica. Sendo assim, ao pegar os exemplos que utilizamos para o reducionismo e holismo, uma abordagem sistêmica inclui tanto a consideração de aspectos individuais como aspectos culturais para desenvolver intervenções em sistemas sociais. Pensar de forma sistêmica envolve lidar com ambos os paradigmas ao mesmo tempo. É contraditório… E tá tudo bem! Ter múltiplas perspectivas sobre o mesmo fenômenos é algo comum no dia a dia de pensadores sistêmicos.

Armadilhas do reducionismo

Martin Reynolds e Sue Holwell apresentam um argumento poderoso sobre como as formas “tradicionais” de olhar para bagunças podem ser contraprodutivas. Eis o sumário de fraquezas do reducionismo inadvertido:

• As interconexões podem ser ignoradas – é fácil ignorar as relações entre os nossos hábitos de consumo e o impacto que isso tem no desmatamento.

• Uma única causa pode ser assumida – a causa raiz do bem estar no ambiente de trabalho é o salário. Se as pessoas recebem bem elas automaticamente estão felizes.

• Pode-se supor que um indivíduo é o culpado – ao invés de de tentar entender as maneiras pelas quais surgiu uma situação que levou a um resultado problemático.

• Pode haver foco excessivo nos resultados (e, portanto, apenas no que pode ser medido) – número de árvores, reduzir emissões de CO2, aumentar produtividade – ao invés dos processos pelos quais as mudanças benéficas podem ocorrer.

As várias escolas do pensamento sistêmico

Muita gente, ao tomar contato com as abordagens apresentadas em livros da Donella Meadows e Peter Senge, acredita que a ferramenta básica do pensamento sistêmico é o que conhecemos como diagramas de loops causais.

É importante ressaltar que existe uma infinidade de metodologias e abordagens dentro do campo do pensamento sistêmico, especialmente quando aplicado a organizações.

Em breve publicarei um artigo para falar só das escolas do pensamento sistêmico.

Pra já você pode assistir este vídeo do meu sócio Rodrigo, onde ele fala um pouco sobre o assunto. Este vídeo faz parte do nosso curso de pensamento sistêmico e complexidade aplicados à organizações.

Conclusão

O pensamento sistêmico é uma forma de olhar para o mundo, um paradigma científico e um conjunto de metodologias que podem ser úteis para intervir em diferentes contextos.

Não é apenas o que foi popularizado em livros conhecidos como “A quinta disciplina” (Senge) e “thinking in systems” (Meadows). Não se trata apenas de loops causais. Não se trata apenas de uma visão holística.

Nós olhamos para o mundo de forma sistêmica quando fazemos distinções, relações, identificamos partes e todos e exploramos diferentes perspectivas.

Este é um artigo introdutório que vai ser complementado por muitos outros neste blog.

Se você quiser aprender mais sobre mapeamento de sistemas, veja este artigo.

Se você quiser aprender mais sobre teoria das redes aplicada às organizações leia este e este artigo.

Não se esqueça de ter em mente que todo modelo possui as suas falácias, como explorado neste artigo.

Nós temos um curso de pensamento sistêmico e complexidade aplicados, saiba mais aqui.

Obrigado por ler até aqui!

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Sobre o(a) autor(a): Ravi Resck

Ravi é um hacktivista social, atuando também como facilitador, designer organizacional e mapeador de sistemas sociais. Se dedica ao estudo de metodologias colaborativas e à complexidade dentro dos contextos organizacional, relacional e ambiental. Sua experiência se estende de empresas de todos os portes até cooperativas e associações do 3° setor, tanto no Brasil como em cenário global. Ademais, Ravi tem um histórico de envolvimento com Organizações Autônomas Descentralizadas (DAOs), no mapeamento de redes sociais em organizações de grande escala e na criação e manutenção de comunidades de prática dentro e fora de empresas.