Trabalhar com design organizacional envolve muitas conversas com pessoas que possuem perspectivas diferentes sobre um mesmo assunto.

Sistemas sociais são feitos de interconexões que geram aprendizado mútuo a partir das divergências e convergências entre as pessoas que fazem parte de um determinado contexto.

Traduzir a complexidade desses sistemas não é uma tarefa das mais simples mas felizmente nós já estamos tentando fazer isso há muito tempo. E é aí que entra o super poder dos mapas.

Pensadoras e pensadores sistêmicos adoram mapas e não é à toa! Quando queremos compreender melhor um dado sistema podemos utilizar várias abordagens de mapeamento para descrever os fenômenos observados. E não são apenas nerds sistêmicos que curtem mapas.

A cartografia em geral teve uma grande influência no desenvolvimento da sociedade e da civilização como um todo.

Antes mesmo de haver uma escrita desenvolvida parece que os humanóides já faziam mapas dos lugares por onde passavam e tentavam documentar cada passo que davam.

Uma das primeiras funções que atribuímos aos mapas é a de orientar e localizar pontos de interesse em um determinado terreno. Mas a utilidade dos mapas não para por aí.

Os mapas tiveram bastante influência na expansão das grandes civilizações, estratégias militares e conquistas de outros povos. Naturalmente que os mapas nunca foram neutros.

Há sempre um interesse por trás de qualquer mapa(político, econômico, pessoal, cultural, social, etc) e aqui não vai ser diferente.

Perceba que os mapas ajudaram a construir narrativas que fundamentam questões estruturais na nossa sociedade até hoje, como por exemplo, a divisão do mundo em hemisférios e meridianos.

Construir um mapa não é muito diferente de escrever um livro. Os autores vão apresentar suas inferências, opiniões e expor toda a sua visão de mundo ao comunicarem suas idéias aos leitores.

A mesma coisa acontece com o mapa mundial que descreve um planeta de forma arredondada mas no entanto coloca a europa no centro do mundo e estabelece o que é norte e o que é sul. Obviamente que os mapas popularizados pelos europeus(que estão em voga até hoje) descrevem o mundo como visto por eles.

Leia este artigo para aprender mais sobre como os mapas influenciaram o mundo.

Eu já falei exaustivamente sobre a impossibilidade de capturar a essência da realidade com perfeição ao mapear sistemas portanto neste artigo vou focar somente no aspecto funcional dos mapas de sistemas e não em suas limitações.

Proncovô? Oncotô?

Ao lidar com sistemas complexos – e organizações são sistemas complexos – nos deparamos com uma primeira limitação básica do ser humano: não conseguimos processar grandes quantidades de informações de uma vez. Miller já dizia em 1956 que nós não conseguimos reter mais de 5-7 pedaços de informação por vez na nossa memória de curto prazo.

Sendo assim precisamos de algum recurso que nos ajude a processar quantidades massivas de informações e relacione esses dados entre si.

Ao mapear sistemas nós podemos:

  1. Fazer distinções entre ideias.
  2. Organizar ideias em sistemas compostos de partes e todos.
  3. Identificar relações entre ideias.
  4. Ter múltiplas perspectivas sobre qualquer ideia.

E não pára aí!

  • Mapas nos ajudam a visualizar informações: ao utilizar formas, linhas, ícones imagens e outros elementos conseguimos visualizar um todo ao invés de partes desconectadas.
  • Mapas tangibilizam a informação: a capacidade de mover as formas que representam ideias de um lugar para o outro é drásticamente melhorada.
  • Mapas nos oferecem uma visão orientada a objetos: o mapeamento ressignifica ideias como objetos (formas, ícones, imagens, rótulos, etc.). Nos ajuda a tirar idéias da cabeça e torna mais fácil quebrá-las em partes menores, agrupá-las e reduzir a complexidade de alguma forma.
  • Mapas nos ajudam a prototipar idéias: Mapear sistemas muitas vezes oferece um campo fértil para testar novas idéias. Os mapas funcionam como um laboratório de prototipagem rápida.

Casos de uso

Ao mapear um sistema é importante perceber o que queremos expressar. Aqui vão alguns casos de uso bem comuns.

a) Evidenciar conexões de figuras influentes e/ou posições dentro de um sistema

https://arc-anglerfish-washpost-prod-washpost.s3.amazonaws.com/public/PI6X4S2UDI62ZNCBF6Z25O37PY.jpg

https://www.researchgate.net/profile/Bin-Wang-45/publication/318796167/figure/fig4/AS:614037511471125@1523409359486/A-generalised-stakeholder-map-for-the-Enhanced-Drought-Information-System.png

https://docs.kumu.io/images/sna-dashboard.png

b) Organizar conhecimento e perceber a interdependência entre diferentes áreas de estudo

https://cdn.slidesharecdn.com/ss_thumbnails/mindmaps-101221102049-phpapp02-thumbnail-4.jpg?cb=1292927007

https://pbs.twimg.com/media/EjHkSkuXYAM3o9_.jpg

c) Explicar conceitos

d) Descrever fluxos e processos

https://hugopimenta.files.wordpress.com/2010/10/gtd_chart.png

e) Descrever as relações entre diferentes elementos de um sistema

https://i.pinimg.com/originals/89/4b/0a/894b0ac0f3911862c34bc01910c9a9c5.png

f) Descrever relações causais não lineares de problemas complexos

Naturalmente o uso de mapas e diagramas vai muito além do escopo apresentado neste artigo. Os casos apresentados estão dentro dos usos mais comuns na minha prática como consultor.

Quando mapear sistemas?

Nem tudo precisa ser mapeado.

Mapear sistemas pode ser especialmente útil quando:

  • Queremos obter uma compreensão mais profunda do contexto e identificar lacunas em nossa compreensão de um sistema.
  • Tentamos identificar pontos de alavancagem para fazer escolhas sobre como intervir efetivamente em um sistema.
  • Queremos reunir diversas partes interessadas para co-criar um entendimento compartilhado(sensemaking).
  • Queremos mitigar os riscos de consequências não intencionais de uma ação e reduzir a probabilidade de criarmos soluções superficiais que não abordam os problemas reais.
  • Desenhamos uma solução, mas ela está funcionando de maneiras inesperadas ou contra-intuitivas, e queremos entendê-la melhor.

Quando desenhamos intervenções para sistemas sociais o mapeamento é um recorte específico do grande sistema que queremos compreender.

Funções do Mapeamento

Os mapas desempenham quatro funções básicas para qualquer pessoa que deseja utilizar uma abordagem de transformação sistêmica:

  • Clarificação: discussões profundas são geradas para que todos estejam na mesma página.
  • Captura: idéias são rapidamente organizadas e contextualizadas.
  • Colaboração: múltiplas perspectivas são consideradas para estimular inovação.
  • Comunicação: contextualizar conceitos e processos para diferentes públicos de interesses.

Essas quatro funções no auxiliam a interagir com sistemas sociais munidos de estratégias pragmáticas para desenhar intervenções que podem alavancar micro e macro transformações.

Ao utilizar mapas como um recurso de clarificação, captura, colaboração e comunicação nós podemos:

1. Fazer algum sentido da complexidade

  • Visualizar e compreender sistemas com mais profundidade
  • Clarificar relações entre elementos
  • Desafiar crenças e modelos mentais
  • Identificar relações causais
  • Identificar loops e padrões
  • Descobrir lacunas de conhecimento

2. Engajar stakeholders

  • Traduzir um pouco da complexidade em idéias menos abstratas
  • Desenvolver uma visão comum do sistema
  • Desafiar premissas
  • Compreender nichos do sistema
  • Mapear fronteiras e possibilidades de expansão

3. Identificar oportunidades de intervenção

  • Pontos de Alavancagem
  • Ciclos de retroalimentação(feedback loops)
  • Estruturas, Acordos e Políticas
  • Possíveis cenários futuros
  • Rituais, Interações e Distribuição de Informação

Como mapear sistemas?

Existem várias abordagens de mapeamento. Para começar você pode explorar alguns dos recursos que me ajudaram na minha jornada de systems mapper(todos em inglês):

Nós também oferecemos um curso de Pensamento Sistêmico aplicado aqui na Target Teal. Visite a página do PESCA e descubra quando será a próxima turma!

Softwares para mapear sistemas

Agora que você tomou consciência da importância dos mapas eu preparei uma lista de software que podem te ajudar a se lançar nessa jornada de mapeamento de sistemas.

Kumu.io

O Kumu é o software que mais utilizo no meu dia a dia de mapeador. Ele oferece templates pré formatados para trabalhar com SNA, Stakeholder Mapping, Systems Mapping e outros. Também calcula métricas de SNA e possui uma janela na esquerda com a possibilidade de formatar texto com markdown e embedar vídeo, áudio e sites externos.

Com uma interface relativamente intuitiva o Kumu permite fazer mapeamentos agradáveis, interativos e organizados. Possui uma linguagem de programação própria muito parecida com css que foerece infinitas possibilidades de customização mas você não precisa saber programar nada para utilizá-lo.

O plano gratuito do Kumu cobre todas as minhas necessidades profissionais, eu só utilizo a versão paga quando um cliente quer ter os seus dados protegidos(a conta free deixa tudo público).

Plectica

O Plectica é um software relativamente novo e é desenvolvido pelo Cabrera Lab. O Derek Cabrera é um personagem controverso e oferece várias críticas relevantes a algumas modinhas do pensamento sistêmico.

O Plectica é um software de mapeamento alinhado com o framework DSRP desenvolvido pelo Derek. Eu gosto muito de utilizar o Plectica para desenhar processos, fluxos de workshops e outras coisas. As possibilidades são infinitas e de fato esse software oferece algumas coisas que nenhum outro possui.

O plano free possui algumas limitações de espaço mas é o suficiente para compreender o que o plectica oferece de diferente.

7Vortex

O 7Vortex é um software desenvolvido por um amigo, o Hugo Araujo. O software foi inicialmente pensado para construir bases de dados de conhecimento para auxiliar designers biomiméticos a montarem uma poderosa DB que oferece informação de ponta para desenvolvedores de tecnologias inspiradas na natureza.

Além disso o 7Vortex oferece uma interface muito intuitiva e pode ser bastante útil para montar apresentações. É free!

Confesso que uso muito pouco o 7vortex mas ainda penso em alguns usos pra ele no futuro.

InsightMaker

Este é o único software de mapeamento nesta lista que oferece a possibilidade de gerar BOTG(Behavior Over Time Graphs) e rodar simulações dos modelos que são construídos. Com isso você pode simular o comportamento das variáveis em mapas causais e de stock and flow. É excelente para fazer modelação de sistemas complexos.

O InsightMaker foi desenvolvido pelo grande Gene Bellinger e também conta com uma biblioteca fascinante de criações dos usuários que por si só já funciona como uma grande escola de mapeamento.

É totalmente free.

GraphCommons

O GraphCommons é um pouco menos intuitivo que o Kumu mas oferece muitas funcionalidades parecidas e muita coisa que o Kumu não tem.

É uma aplicação bem versátil e que nos últimos anos ganhou inúmeras atualizações. quando preciso lidar com uma grande quantidade de dados tenho a tendência a preferir o GraphCommons ao invés do Kumu.

O plano free do GraphCommons também cobre todas as necessidades básicas de um usuário e mantém todos os projetos públicos.

Loopy

O Loopy foi desenvolvido pelo Nicky Case e pode ser utilizado para explorar dinâmicas de loops simples com animações que mostram o fluxo da informação/energia no sistema e como as variáveis se comportam neste processo.Não é indicado para mapeamento complexos mas funciona como uma excelente ferramenta didática para explorar loops causais.

Gephi