Russell Ackoff, em um dos seus vários momentos de extrema lucidez, disse:

Boa parte do planejamento corporativo que observo é como uma dança da chuva; não tem efeito sobre o clima que se segue, mas aqueles que o praticam acham que tem. Além disso, parece-me que muitos dos conselhos e instruções relacionados ao planejamento corporativo são direcionados para melhorar a dança, não o clima.

O conteúdo voltado para as mazelas corporativas é vasto e não faltam também aqueles que afirmam ter encontrado a bala de prata que vai resolver todos os problemas.

A maioria dessas abordagens tratam a transformação de sistemas sociais como algo que é feito dentro de um laboratório, isto é, isolado do ambiente, do mundo real.

Ao olhar para organizações como sistemas sociais, compreendemos que os atores, a cadeia de valor, os recursos e as forças do mercado estão todos relacionados. É impossível compreender um sem observar o outro.

Gregory Bateson ilustrou essa ideia lindamente, ao chamar atenção para importância de observar as relações entre os elementos de um sistema:

Rompa uma estrutura holística, e você diz, ou faz sem dizer: eu só vou atender a esse lado da moeda. Vou estudar o papel do médico. Agora, o papel do médico é apenas uma extremidade de várias relações dentro de um sistema de saúde. E você não pode estudar uma parte do todo e esperar fazer algum sentido. O que você vai fazer é um desastre.

O ponto é que, ao tratar organizações como sistemas, estamos interessados no produto das interações entre os vários elementos do sistema e não nas partes isoladas. As partes quando isoladas não dizem muito sobre o funcionamento do todo.

Como hoje estou cheio de citações, para ilustrar mais uma nuance deste ponto eu vou partilhar uma velha história sufista.

A história começa assim… Havia uma cidade onde todos os habitantes eram cegos. Um rei muito rico chegou nas redondezas. Ele trouxe um exército e acampou no deserto. Ele tinha um elefante bem grande, que ele usava para impressionar as pessoas. A população ficou ansiosa para ver o elefante e muitos foram correndo para procurá-lo.

Como eles eram todos cegos e não faziam ideia de qual é a forma de um elefante, eles começaram a apalpar o animal em suas várias partes para ter alguma ideia de como ele era. Cada um deles achava que sabia exatamente como era o elefante, porque podiam sentir uma parte do animal.

Uma pessoa pegou na orelha do elefante e disse: “é algo grande e rugoso”. O outro pegou na trompa do animal e disse “Eu tenho os verdadeiros fatos. É como uma mangueira oca, ou melhor, uma cobra.”

Outra pessoa que apalpava a perna do elefante afirmou: “É firme e forte, como um grande pilar.”

Cada um deles sentiu uma parte de várias. Cada um achava que tinha conhecido o elefante. Nenhum deles realmente sabe como um elefante é de verdade.

Essa velha história sufista serve para nos lembrar de algo que é senso comum no pensamento sistêmico: o comportamento de um sistema não pode ser conhecido apenas conhecendo os elementos dos quais o sistema é feito.

Como os sistemas evoluem

Organizações e indivíduos estão em constante mudança. Sempre foi assim.

Como hoje vivemos num mundo altamente interconectado e globalizado, talvez seja mais fácil perceber essas mudanças.

Mas a real é que tudo está em constante transformação e, para sobreviver num mundo turbulento como esse, todos nós precisamos fazer um truque: adaptar-nos ao meio em que habitamos.

Esta ideia não é nova. Na verdade, é exatamente isso que Charles Darwin observou e propôs no seu pequeno ensaio de 1859 conhecido como “A origem das espécies”.

Darwin era bem próximo de um economista chamado Herbert Spencer, que ficou bastante conhecido por utilizar ideias evolucionistas para explicar o funcionamento da sociedade. Esses pensadores estavam buscando a força motriz da evolução e, ao observar diversas interações na natureza, chegaram a conclusão de que talvez o que impulsione a evolução das espécies seja a competição pelos recursos que estas precisam para sobreviver. É o famoso discurso da “sobrevivência do mais forte”.

Existem controversas, alguns argumentam que não era isso que Darwin queria dizer. Eu inclusive concordo, porque interpreto a ideia de Darwin como a sobrevivência daquele que melhor se adapta ao ambiente e não como a sobrevivência do mais forte.

O que importa é que essa narrativa ainda está bem presente hoje no discurso do “trabalhe enquanto eles dormem” e a propria ideia da mão invisível que regula o mercado também parece ter tido uma forte influência desse ditado popular.

Muitos autores e autoras questionaram a ideia da competição como elemento determinante da evolução. Kropotkin escreveu um livro chamado “Ajuda Mútua” onde expõe diversos exemplos de colaboração na natureza e propõe que a sociedade deveria se inspirar em tais exemplos para a divisão social do trabalho, por exemplo.

Lynn Margulis, a pesquisadora que desenvolveu a “teoria de gaia” com James Lovelock, descobriu o processo de “endosimbiose”, que provou de uma vez por todas que a colaboração é tão – ou mais – importante quanto a colaboração para a evolução das espécies.

Hoje sabemos que apenas 43% do nosso corpo é feito de material humano. O resto é uma simbiose entre fungos e bactérias.

Mas foram Humberto Maturana e Francisco Varela que, ao estudar o processo de cognição nos seres vivos, descobriram o que parece ser um dos fatores mais relevantes para compreender a força motriz da evolução.

Acoplamento Estrutural

Cento e vinte anos depois de Darwin, Maturana e Varela apontaram que o fator determinante na evolução não é nem a competição nem a colaboração.

Os autores chamaram a descoberta deles de “acoplamento estrutural” e afirmam que este processo é inerente a todos os seres vivos.

A ideia é absurdamente simples.

Em termos biológicos, o acoplamento estrutural acontece quando um organismo interage com o seu meio e, ao fazer isso, acaba por alterar a sua estrutura interna assim como a estrutura do meio com o qual está interagindo.

A imagem abaixo tenta ilustrar esse fenômeno.

Existem exemplos disso em todos os lugares na natureza. Quando observamos a evolução dos beija flores, podemos compreender melhor como eles foram se modificando com o passar do tempo se também levamos em consideração as plantas das quais eles se alimentam, que por sua vez também adaptaram sua fisionomia para atrair e alimentar mais beija-flores.

Ora, a planta precisa do beija flor para disseminar seu pólen, e o beija-flor precisa da planta para se alimentar.

O argumento dos autores, portanto, é de que a evolução se dá por uma influência mútua entre o organismo e o seu meio.

Não é a competição ou a colaboração, mas a interação entre a estrutura do sujeito com a estrutura do ambiente que acaba por criar as condições para a magia da sobrevivência, que é a adaptação em si.

Em outras palavras, um organismo que é capaz de sobreviver ao seu meio vai ter que alterar sua própria estrutura interna para conseguir viver mais um dia.

Como o organismo e o ambiente alteram sua estrutura nessa dança, chamamos isso de acoplamento estrutural.

Basicamente, o que Maturana e Varela estão propondo é que todo organismo molda e é moldado pelo meio que habita.

É um lindo conceito que expressa a natureza fluida da vida, a contínua transformação que se dá pela interação do sujeito com o seu meio.

Até mesmo na comunicação é fácil de observar este fenômeno. Comunicador A só vai ter sucesso em transmitir uma informação para o receptor se a estrutura da mensagem estiver de acordo com a estrutura do receptor. Tente falar em português com uma pessoa que só fala japonês… Suspeito que não vai funcionar.

Sendo assim, se for para ter sucesso no processo de comunicação, um acoplamento estrutural entre receptor e transmissor deve estar presente.

Embora esse conceito tenha surgido na cibernética biológica, transferir esse conceito para organizações é fácil. Organizações estão acopladas estruturalmente ao ambiente em que estão inseridas.

Algumas organizações estão acopladas com outras organizações, outras com um setor específico e todas elas estão de alguma forma acopladas aos nichos de mercado que habitam. Toda organização está acoplada ao ambiente. No ambiente temos os clientes, fornecedores, competidores e futuros possíveis de serem explorados.

No momento em que uma organização deixa de se adaptar às necessidades dos seus clientes, provavelmente morre.

Toda organização que possui uma entidade jurídica está invariavelmente acoplada ao estado.

As áreas de uma organização também estão estruturalmente acopladas entre si, ou pelos menos deveriam.

Se eu quero compreender como funciona uma escola, preciso observar o seu acoplamento estrutural com o sistema educacional vigente. E pra compreender o sistema educacional, preciso observar seu acoplamento estrutural com a sociedade de uma forma geral.

Considerar o acoplamento estrutural é essencial para desenhar organizações que conseguem se adaptar às turbulências do mundo globalizado.

Imagem de Victor Barres

Esse é o lance do pensamento sistêmico… Toda vez que você quer compreender um sistema, você precisa colocar esse sistema dentro do contexto maior do qual ele faz parte.

Fazer intervenções em sistemas sociais sem considerar os vários acoplamentos é uma receita para a catástrofe.

É assim que nós fabricamos pandemias, crises econômicas e conflitos geopolíticos.

Se queremos maximizar o potencial adaptativo de uma organização, precisamos desenhar estruturas flexíveis que se moldam de acordo com as necessidades do contexto.

Isso com certeza não será possível se continuarmos usando métodos de gestão do século passado, onde a metáfora das organizações máquina ainda tava na moda.

Parece que a maioria das organizações perderam a capacidade de resposta, e sem isso é impossível moldar a estrutura interna para dar um match com o ambiente.

Ao desenhar uma intervenção num sistema social, vale a pena investigar os acoplamentos entre as estruturas que você quer influenciar.

Aqui na Target Teal nós desenvolvemos uma tecnologia social para ajudar organizações a “adaptarem” suas estruturas para triunfar nos meios que habitam, chamamos a abordagem carinhosamente de Organizações Orgânicas. Clique aqui pra saber mais.

Há um outro artigo que escrevi que pode ser bastante complementar ao conceito de acoplamento estrutural, onde exploro a influência do comportamento de indivíduos nas estruturas dos sistems sociais e vice-versa. Leia aqui.

Neste artigo sobre acoplamento, coesão e encapsulamento, o Davi explora outras nuances do tema aplicado ao design organizaiconal.

Obrigado por ler até o final!

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Sobre o(a) autor(a): Ravi Resck

Ravi é um hacktivista social, atuando também como facilitador, designer organizacional e mapeador de sistemas sociais. Se dedica ao estudo de metodologias colaborativas e à complexidade dentro dos contextos organizacional, relacional e ambiental. Sua experiência se estende de empresas de todos os portes até cooperativas e associações do 3° setor, tanto no Brasil como em cenário global. Ademais, Ravi tem um histórico de envolvimento com Organizações Autônomas Descentralizadas (DAOs), no mapeamento de redes sociais em organizações de grande escala e na criação e manutenção de comunidades de prática dentro e fora de empresas.

Comentário

  1. Aline Figueiredo 3 de setembro de 2022 às 13:32 - Responder

    Ravi, tudo bem?

    ‘Cabeçudo’ e brilhante.

    Destaco esse trecho dentre outros que me tocaram bastante:

    “Se queremos maximizar o potencial adaptativo de uma organização, precisamos desenhar estruturas flexíveis que se moldam de acordo com as necessidades do contexto.”
    Estruturas flexíveis que se move e se molda as necessidades do sistema.

    Obrigada pelo artigo.

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