Aqui no blog da Target Teal trazemos diversas provocações ao status quo do mundo das organizações. O trabalho, as corporações, a gestão tradicional e o jeito comum de fazer as coisas nestes contextos passam por nossas pesadas críticas. Também falamos que nestes processos de transição para organizações mais ágeis, auto-organizadas e efetivas precisamos de apoio das lideranças ou alguém que “proteja o espaço” para que um experimento cultural aconteça. Mas será mesmo?

Ainda acredito que ter bons patrocinadores, é de fato, o caminho mais rápido para a mudança. Mas às vezes queremos tentar um experimento ou criar uma mudança mesmo sem ter um apoio claro de um gestor ou autoridade reconhecida. Ou seja, queremos ser agentes de mudança sem um alvará! É aí que entra o Culture Hacking (ou hacking cultural).

Talvez você já tenha buscado apoio na transformação que você busca criar. Mas você ouviu:

  1. “Este não é o seu o papel” (em outras palavras, “não quero que você faça isso”)
  2. “Você deveria focar no trabalho de verdade” (que mentalidade mais Taylorista)
  3. “Isso é trabalho do RH” (mas o RH está preocupado com os OKRs e o bônus do final do ano)
  4. “Não acho que esse é um bom caminho” (talvez essa seja a desculpa mais legítima que o seu patrocinador pode dar)

Mas a boa notícia é: você não precisa de permissão explícita se for corajoso o suficiente.

Como trilhar o caminho do Culture Hacking

Quando imaginamos um hacker, logo pensamos em um geek mal-intencionado e com um computador na mão, pronto para tirar vantagens de outros através do seu conhecimento avançado em computação. Mas a cultura de hacking nasceu muito antes disso, começando com Peter Samson, que foi provavelmente o primeiro do grupo. Em seu livro Hackers: Heroes of the Computer Revolution, Steven Levy apresenta Peter como um entusiasta de tecnologia, membro de um clube de fãs de ferroramas. Peter criava pequenas adaptações nestes sistemas eletrônicos para mudar o seu funcionamento, buscando corrigir um problema ou criar uma melhoria. Estas modificações foram denominadas por eles de “hacks” (podemos traduzi-las como “improvisos” ou até “gambiarras”). A associação do termo “hacker” a uma postura moralmente questionável é moderna e posterior ao clube de ferroramas que Peter participava.

Peter Samson

Aqui ampliamos a definição de cultura hacker para além do contexto tecnológico. Se adotarmos uma perspectiva sistêmica para nossas organizações e interações sociais, podemos olhá-las de forma semelhante a como hackers enxergam e modificam computadores. Ou seja, podemos encarar organizações como sistemas.

No contexto organizacional, definimos hacking como sobretudo uma postura de inconformismo com como as coisas são, acompanhada de uma preferência por soluções simples. Aha! Agentes de mudança podem ser hackers. 😉

Estratégias de Culture Hacking

As estratégias e ferramentas para hackear cultura são inúmeras. Listamos aqui alguns dos principais caminhos que encontramos.

Anonimato: “Quando experimentar não é seguro para quem experimenta, ou quando o viés criado por quem experimenta distorce ou invalida o experimento, o anonimato pode ser uma tática interessante.” – Marco Barón. A primeira condição, em especial, tende a ser verdadeira quando estamos atuando sem permissão explícita, ou contrário às intenções e gostos de quem tem autoridade na organização. Muitos hackers utilizam o anonimato como tática.

Design Cultural: Depois de importar as práticas tradicionais de gestão de projetos e falhar miseravelmente, a indústria de software entendeu que problemas complexos demandam abordagens experimentais e iterativas ao invés de grandes planos e cronogramas. O Movimento Ágil e a Lean Startup surgiram como remédios para a síndrome do prever-e-controlar. E o que falar da cultura organizacional? É simplesmente complexo². O Design Cultural promove o uso de experimentos e prototipação rápida, que buscam modificar a cultura através dos artefatos. O DC é uma das principais abordagens para quem busca mudar sistemas sociais através de pequenos hacks.

Teoria Geral de Sistemas: A TGS busca olhar sistemas de forma holística, contrastando com a visão reducionista que temos do mundo. Sistemas são partes que interagem e interdependem. O vocabulário e os conceitos associados a este corpo de conhecimento são importante para quem busca modificar sistemas sociais. Vale a pena estudar entropia, homeostase, heterostase, feedback, etc.

Cavalo de TróiaMemética: O “meme” foi um termo criado por Richard Dawkins, em seu livro “O gene egoísta“. Na busca por encontrar um equivalente ao gene no campo da cultura, Dawkins definiu o meme como a unidade básica de memória. Um meme é nada mais que uma ideia, capaz de se propagar através de diferentes mentes (humanas ou animais). A memética traz algumas respostas de porque algumas ideias se propagam melhor do que outras. Além disso ela traz estratégias para difusão de memes, como o famoso Cavalo de Tróia. Lembra das propagandas de cerveja com mulheres de biquíni? Bem, elas tentavam associar um meme atrativo (sexo) a um nem tanto (cerveja). Entender como as ideias se comportam e  evoluem é crucial para qualquer agente de mudanças, especialmente um hacker cultural.

Você está disposto a se arriscar e ser um Culture Hacker?

Neste ponto do texto já deve ter ficado óbvio que Culture Hacking, além de não ser simples, pode ser perigoso para você. Atuar sem permissão explícita é sempre arriscado, e por isso que hacking requer um compromisso consciente. Você está disposto a se arriscar? Considere essa situação que vivi:

Eu estava atuando em uma organização como facilitador em alguns times, auxiliando na adoção de práticas de autogestão. Um dos grandes pontos de crítica meus com relação a esta empresa eram as práticas de orçamento, ainda muito travadas para um ambiente autogerido. Certo dia, quando fui ao banheiro, percebi que não havia mais sabão para lavar as mãos. Alguém colou um postit no local dizendo “faz uma semana que acabou”. Aproveitei a oportunidade para fazer a minha contribuição:

Hack Cultural

Qual foi o resultado? No dia seguinte, em um evento regular da empresa, o CEO estava falando sobre o processo do orçamento e prestando esclarecimentos sobre o que tinha acontecido. Minha intenção de causar um distúrbio no sistema teve um impacto maior do que eu imaginava! Claro que me mantive nesse período em anonimato e nada aconteceu. Mas vai saber! Ele poderia não ter gostado da ideia, caso descobrisse. 😛

Esse foi só um exemplo de um pequeno hack e como você pode correr pequenos riscos calculados ao tentar manipular a cultura de uma organização. E também é uma evidência de que qualquer um pode ser um hacker cultural. Basta ter estômago.

Diferentes Níveis de Culture Hacking

Ainda está interessado? Ótimo! Hackear organizações é divertido, mas vale antes tentar outras coisas mais simples. Apresento aqui 4 níveis de hacking para você praticar:

  • Hackear a si mesmo: Que tal começar tentando mudar um hábito? O livro O Poder do Hábito de Charles Duhigg dá algumas dicas boas nesse sentido. Por exemplo, percebi que estava tomando pouca água e que isso estava afetando a minha saúde negativamente. Em seguida, defini que o meu objetivo seria tomar 3L de água por dia. Mas como adquirir esse hábito? Consegui me hackear ancorando esse objetivo a um hábito que já tenho. Costumo olhar minhas tarefas diariamente no Todoist. Basicamente, sempre que estou no computador fico olhando para as próximas ações definidas. O hack foi bem sucedido quando estabeleci uma tarefa recorrente de “Tomar muita água”. Como observo minha lista várias vezes ao dia, sempre me lembro que devo completar minha garrafa de água e beber mais. É um hack simples, mas efetivo.
  • Hackear o ambiente: A complexidade aumenta quando precisamos influenciar o ambiente que está fora de nós. Imagine que você se depara com uma sala de treinamento, onde você vai ministrar um curso para 30 pessoas. Mas a acústica da sala é péssima e todos estão com dificuldade de se ouvir. O que fazer? Que tal encher a sala de balões de ar? Sim, uma solução simples que afeta a acústica da sala e resolve o problema. Hackar o ambiente também é possível.
  • Hackear a cidade (local público): Você acha que consegue mudar a direção do fluxo de pedestres de um parque público? Ou que tal influenciar os motoristas a pararem antes de uma faixa de segurança? Essa arte 3D conseguiu hackear a cidade com sucesso.

Hack Urbano

  • Hackear a organização: Um sistema social mais complexo como uma organização também exige uma abordagem mais sofisticada. O Design Cultural ajuda muito a hackear organizações, pois olhamos nossas intervenções como experimentos.

Aprenda mais sobre Culture Hacking

Estamos organizando um programa de Culture Hacking para ensinarmos (e aprendermos com) agentes de mudança que estejam insatisfeitos com suas organizações. Durante o programa, os hackers percorrerão os diferentes níveis de hackeamento até intervirem em organizações reais. Neste programa você vai se deparar com aulas sobre memética e Design Cultural, intervenções urbanas e muitos experimentos ousados. Topa fazer parte? Inscreva-se no formulário abaixo para sabermos que você está interessado. Entraremos em contato quando a turma estiver aberta. 😉

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