Antifrágil: a sua organização como um sistema vivo

Em seu livro Antifrágil: coisas que ganham da desordem, Nassim Taleb apresenta uma nova propriedade de sistemas que até então não tinha sido nomeada.

Um sistema pode ser resiliente. Nesse caso ele resiste a determinados impactos e não sofre alterações com isso.

Um sistema também pode ser frágil. Nesse caso ele se deteriora ou é destruído completamente ao sofrer determinado impacto.

E por fim, um sistema pode ser antifrágil. Quando um sistema se beneficia do que é estressante e inesperado, transformando-se em algo melhor do que antes, dizemos que ele é antifrágil.

Pegando o exemplo preferido do Taleb, os ossos ficam mais fortes quando sujeitos ao estresse. Se você trabalhar uma temporada em uma empresa de mudanças verá sua ossatura ficar mais forte e resistente. E caso você se livre de todo tipo de impacto ao passar as férias em uma estação espacial, seus ossos voltarão muito mais fracos.

Para entender melhor o conceito, podemos dividir os sistemas em duas categorias:

Sistema Mecânico (não complexo):

  • Precisa de reparos e manutenção contínua
  • Odeia a aleatoriedade
  • Não há necessidade de recuperação
  • Pouca ou nenhuma interdependência entre as partes
  • Agentes estressores causam fadiga do material
  • Envelhece com o uso (desgaste)
  • Subcompensação com impactos
  • O tempo traz apenas a senescência

Sistema Orgânico (complexo):

  • Autorreparação
  • Adora a aleatoriedade (pequenas variações)
  • Há necessidade de recuperação entre os estressores
  • Alto grau de interdependência entre as partes
  • Ausência de agentes estressores causam atrofia
  • Envelhece com a falta de uso
  • Sobrecompensação com impactos
  • O tempo traz o envelhecimento e a senescência

Tornando a sua organização antifrágil

Fica claro pelas listas acima que um sistema complexo (como um organismo vivo) é intrinsecamente antifrágil. Aquilo que é mecânico é frágil. O que é vivo é antifrágil.

Então podemos jogar fora aquela analogia de que empresas são como máquinas que precisam ser montadas com as melhores peças (pessoas), azeitadas e consertadas? Sim, é um bom começo, mas está longe de gerar a antifragilidade.

Precisamos olhar para as organizações como sistemas vivos.

Quando falamos em organismo vivo, estamos falando de um sistema complexo adaptativo. E aí chegamos na seguinte conclusão:

Sua empresa é um sistema complexo adaptativo, e tratá-la desta forma pode torná-la antifrágil.

Calma, vou explicar o que isso significa.

Para ir direto ao ponto, empresto a definição do Prof. Scott Page. Um sistema complexo adaptativo é composto por agentes que são:

  1. Diversos
  2. Interdependentes
  3. Conectados
  4. Capazes de se adaptarem

Existe uma grande chance de você já acreditar que sua empresa tem agentes (pessoas) que possuem essas qualidades. A questão é que você pode promover essas qualidades em vez de restringir elas. Catalisar, ao invés de criar barreiras.

Traduzindo estas quatro ideias, temos:

Agentes diversos

Cada ser humano é único. Mas é incrível como criamos barreiras nas organizações que repelem os diferentes. Os que pensam diferente, que possuem perspectivas diferentes. Temos medo do conflito e do embate de ideias.

Então a primeira dica é óbvia: não crie um processo de seleção que exclua tantas diferenças.

Claro que com uma grande diversidade surge a necessidade de mecanismos para lidar com o dissenso e com a controvérsia. Mas isso é outro papo.

Outra dica é que times que precisam entregar valor e resolver problemas precisam de diversidade intra-grupo. Os squads e equipes multidisciplinares estão na moda e não é à toa. Resumindo, diversidade é antifrágil.

Agentes interdependentes

Em uma relação interdependente as pessoas são ao mesmo tempo responsáveis e dependentes uma das outras.

Se muitas das decisões dentro da organização dependem da aprovação de poucas pessoas, você está fortalecendo a dependência e não a interdependência.

Por isso a autonomia para tomar decisões na busca do propósito da organização precisa ser estimulada. Não é uma autonomia descuidada e inconsequente. Existem responsabilidades claras e explícitas. Diminuir ao máximo a hierarquia e distribuir autoridade é possível. Veja aqui como a autogestão pode ajudar. Ou seja, interdependência também torna um sistema antifrágil.

Agentes conectados

É preciso abrir espaço para a livre interação dentro de uma organização. A formação de silos é o maior obstáculo no fortalecimento destas conexões entre as pessoas. Aqui o design organizacional se torna mais do que relevante.

Outra variável importante para analisarmos o grau de conectividade é entender como é tratado o feedback na organização. Os projetos, pessoas e equipes estão constantemente buscando feedback? Ou cada um está olhando para sua tela, rezando para não ter que interagir com fulano ou beltrano? Ou seja, conexão entre os agentes também torna o sistema mais antifrágil.

Agentes capazes de se adaptarem

Parece simples, mas não. Todos nós somos capazes de nos adaptar e de aprender. Sim, mas sabe qual é a maior fonte de aprendizado? A experiência. E qual o tipo de experiência que mais nos ensina? O erro.

Culturas organizacionais que abominam o erro, estimulam a fragilidade. Pequenos erros advindos de pequenos experimentos são fundamentais para gerar robustez em um sistema. Se evitamos os pequenos erros, convidamos o grande erro que irá causar um grande e danoso impacto.

Outra pergunta importante aqui é: o quanto estamos criando planos e obrigando as pessoas a seguirem eles? Se criamos um cronograma que todos tem que seguir e um budget que trava a alocação de recursos, estamos criando dificuldades para a adaptação frente ao que está emergindo.

Para tornar a sua organização mais antifrágil, os agentes devem ser mais capazes de se adaptarem.

Finalizando

Repare que grande parte das sugestões apresentadas aqui são para eliminar barreiras construídas. Barreiras em relação a diversidade, a autonomia, a interação a ao aprendizado. Fomos nós ao longo de décadas de administração científica taylorista que criamos elas. Ou como disse o Nassim Taleb:

“De fato, no passado, quando não estávamos plenamente conscientes da antifragilidade, da auto-organização e da cura espontânea, conseguíamos respeitar essas propriedades construindo crenças que serviam ao propósito de administrar e sobreviver à incerteza. Nós proporcionamos melhorias para o agenciamento de deus(es). Podemos ter negado a ideia de que as coisas podem cuidar de si mesmas, sem qualquer agenciamento. Mas os deuses é que foram os agentes, e não os capitães do navio educados em Harvard.”

Nassim Taleb levantando peso na academia

Acredite, esse é o Nassim Taleb na academia.

Se você quer ajuda para construir uma cultura antifrágil em sua organização, vamos conversar.

Por |2018-11-21T10:39:54+00:00junho 2, 2017|Cultura|2 Comentários

Sobre o Autor:

Rodrigo é facilitador e designer organizacional. Formado em Engenharia de Materiais pela POLI-USP. Atuou por mais de 10 anos na criação e condução de programas de desenvolvimento de times e líderes utilizando a educação experiencial como método. Já foi engenheiro e gestor, hoje Rodrigo se considera um “livre discente” na busca de oportunidades para praticar sua pesquisa-ação em organizações que querem mudar fundamentalmente a maneira como operam.

2 Comments

  1. […] caso, nada supera a “via negativa” proposta por Nassim Taleb. Se queremos criar uma organização antifrágil (não basta ser resiliente), precisamos parar com as práticas citadas […]

  2. […] problema dessa abordagem é que ela é extremamente frágil. Não só frágil, mas incompatível com o mundo VUCA por um simples motivo: as coisas mudam. Mesmo […]

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