Um termo na moda hoje é o propósito. Se sua empresa ou organização não tem um propósito, algo está errado. É preciso desenhar ou escrever um antes de qualquer coisa. Mas será?

Será que não estamos usando a ideia de “propósito” com segundas intenções?

Não seria uma maneira de mascarar o velho usando o novo?

Ou seja, seria mais um jeito de “passar batom no porco”?

Esse texto pode servir de alerta para quem leu o livro reinventando as organizações do Frederic Laloux e saiu inspirado pela tríade Autogestão, Integralidade e Propósito. Cada um destes conceitos sedutores oferecem armadilhas e abrem espaço para outras intenções além daquelas descritas pelo Laloux. Vou focar no último ponto: O propósito evolutivo.

Em um passado não muito distante, eu costumava perguntar para os gestores que tinham me contratado, qual era o propósito de sua organização (talvez por influência do Simon Sinek, “start with why”). Eu ouvia respostas variadas para essa pergunta, mas aqueles que já tinham lido o livro do Laloux davam respostas que me deixavam encafifado. Era algo na linha:

“Realmente não temos ainda um propósito como Laloux cita no livro, mas andei pensando aqui, está na hora de escrevermos um. Eu já sei a importância que isso tem na motivação intrínseca.”

O que vinha depois me deixava incomodado. Um esforço em escrever um propósito que pareciam frases de efeito, às vezes até eram bonitas mas que não tinha relação com a realidade. O objetivo era ter algo para motivar. Mas que na prática, era encarado com ceticismo pela maioria das pessoas na organização. Exemplos, mais ou menos hipotéticos:

“Oferecer soluções tecnológicas de grande impacto”

“Revolucionar o mercado de (coloque aqui o setor) e alavancar negócios inovadores”

No final, o propósito estava sendo usado com um artifício para criar um sentimento de que estamos todos no mesmo barco em busca de algo incrível. Era recheado de chavões e palavras vazias ou não refletia no restante das práticas, decisões e cultura organizacional. Era fake.

Com o propósito escrito na parede existiam mais desculpas para exigir uma dedicação e esforço que esgotavam as pessoas e as colocava em situações pouco vantajosas. Afinal, “temos um grande propósito a realizar”. Quem já trabalhou no terceiro setor, já deve ter vivido isso. 

Existe uma grande diferença entre um propósito inferido, a partir daquilo que surge como reflexo das práticas, comportamentos e principalmente intenções das pessoas dentro da organização (em especial aquelas com grande poder institucional) e um propósito arquitetado, que parece ter como objetivo criar um ambiente e engajamento forçado e pouco natural.

Hoje eu não pergunto mais qual é o propósito. Não logo de cara. Eu tento interpretar o propósito por meio de ações que observo e histórias que são contadas. Se existe a chance de ser um propósito evolutivo, ou seja, não é apenas pelo lucro ou status e ainda é algo vivo, isso ficará nítido. E aí, só depois se fizer sentido, eu pergunto.

É importante falar sobre o tema. Só acho muito fácil cairmos na armadilha de usar o propósito como instrumento para fazermos “business as usual”. Vamos falar sobre, mas vamos ter um olhar mais cético, menos deslumbrado. E não vamos apenas falar, vamos agir com base nessa ideia.  

Quando alguém pede ajuda para encontrar o propósito, sigo o seguinte racional. Digo que não iremos desenhar e construir um, pois isso pode mais atrapalhar do que ajudar. Contribuo para que a organização revele seu propósito a partir das reais intenções presentes hoje e não apenas futuros desejáveis. Para isso, precisamos muitas vezes tocar em temas desconfortáveis e fazer perguntas difíceis.

Se queremos criar e transformações organizações para que tenham um propósito evolutivo, vamos fazer sem passar o batom no porco.

Faz sentido para você? Já viveu algo parecido?

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