Experiências. É isso o que eu tenho buscado na minha vida. Novas vivências: no trabalho, em casa, nas férias, nas relações. Não só eu, mas muitos outros da Geração Y.

Experiência é vivência. É fazer algo que gere aprendizado. Algo que faça sentido e cause impacto. Com certeza não é trabalhar por horas extras e para enriquecer. Claro que isso pode ser uma consequência natural, mas certamente não é o foco.

Experiência não é um pacote de benefícios. Não é vale alimentação, vale transporte, férias ilimitadas ou pebolim no escritório. Nem almofadas coloridas.

No último workshop que facilitei junto com o Rodrigo Bastos sobre modelos organizacionais para autogestão

[2], um questionamento interessante emergiu. Onde estão as metas e incentivos nas organizações autogeridas?

Se as novas gerações buscam experiência, qual que deveria ser o incentivo? “Mais experiências” ou “mais dinheiro”? Perceba que a experiência é normalmente algo abundante e intrínseco – ou seja, eu vivo a experiência enquanto trabalho – e não algo escasso e extrínseco, como o dinheiro que eu ganho depois de fazer o trabalho. Logo, se trabalhamos por experiência nós não precisamos de um “incentivo de experiência”, pois já a temos.

Querer experiência não significa fazer trabalho voluntário. Nós precisamos de dinheiro para viver e esperamos ser bem remunerados. Mas não precisa “atrelar um fator variável ao desempenho”. Isso não vai nos fazer trabalhar mais.

Ok, mas onde estão as metas e incentivos na autogestão?

Se muitas pessoas trabalham pela experiência e são bem remuneradas, por que elas precisam de metas e incentivos financeiros?

Se o objetivo é gerar foco, é mais fácil declarar que algo deve ser priorizado em relação a outro algo. Não é necessário estabelecer que a meta de faturamento é R$ 100 mil. Ah, mas precisamos garantir a sobrevivência da organização! Ok, então diga qual é o faturamento necessário para que a organização sobreviva. Note que não é necessário uma meta para isso. Apenas seja transparente.

As organizações autogeridas costumam estar mais atentas ao presente

No século XXI, organizações e indivíduos sofrem de um mal terrível. Chama-se falta de presença. Ao invés de viver cada momento de forma completa, indivíduos ficam presos em remotas possibilidades sobre o que poderá acontecer no futuro. Depois que eu passar no vestibular, a minha vida será diferente. Depois que eu terminar a faculdade, não terei mais problemas. É sempre depois. Eu também sofro disso. Está incrustado na nossa sociedade.

As organizações também caem nessa armadilha, criando planos detalhados, tentando prever o futuro. Planejamento estratégico, gestão de riscos, plano orçamentário, plano de carreira, plano de negócios e… metas. Diversos artefatos que projetam o que pode acontecer.

Frameworks de autogestão, como a Holacracia, não sugerem o uso de metas, por exemplo. Mas em contrapartida, oferecem uma série de mecanismos para a visualização do presente, como reuniões táticas semanais, métricas, checklists, atualizações de projetos, etc.

Mais atenção ao presente e confiança na capacidade das pessoas. Mais experiência e presença, menos projeções e incentivos.


Visualizar o futuro não é importante? Claro que é. Mas você não precisa de metas e incentivos para empurrar as pessoas em direção a ele. A não ser que esse futuro seja algo que só interessa a poucos. Nesse caso, pode continuar com as metas. Mas fique sabendo que a sua organização corre sério risco de extinção, pois muitos não querem mais só trabalhar para os outros. Eles querem trabalhar por uma experiência.