Organização-Rede: uma estrutura associativa para negócios de conhecimento intensivo

Se você já leu alguns posts do blog da Target Teal, deve ter percebido que somos bem inconvencionais nos temas relacionados ao mundo do trabalho. Obviamente não poderíamos deixar de considerar todas essas crenças na concepção da Target Teal, que possui uma estrutura também bem incomum.

Quando iniciamos a org-rede, nos deparamos com algumas premissas que consideramos na hora de definir a nossa estrutura societária e associativa.

  1. Queríamos um modelo com baixa carga tributária. Afinal, o negócio era novo e nem tínhamos ideia se havia mercado para os serviços que pretendíamos oferecer.
  2. O modelo também precisava ser escalável. Algo que funcionasse para 5 parceiros, mas que fosse impossível para 50 não seria interessante.
  3. E talvez o mais importante de todos: queríamos um modelo que não criasse muitas assimetrias de poder. Nada de superior-subordinado ou dono-empregado. Obviamente ter funcionários no formato CLT não se encaixaria.

Depois de escrevermos essas restrições, até desanimei. Achei que a tarefa seria impossível. Para piorar, não encontramos nada parecido no Brasil. Ainda assim, ao rascunharmos o formato apareceram algumas opções.

LTDA com muitos sócios

A primeira e mais óbvia ideia foi criar uma empresa LTDA no regime de tributação SIMPLES nacional. Dessa forma atenderíamos aos critérios 1 e 3, pois todos seriam “donos” da empresa e teríamos também uma baixa carga tributária.

Mas essa estratégia falhava miseravelmente no critério 2. Toda vez que algum novo membro entrasse, teríamos que alterar o contrato social da empresa, incluindo o novo sócio. Isso é caro. Além de que com muitos sócios (mais de 20, por exemplo), o risco de alguém mal intencionado sabotar toda a empresa era grande.

Logo, essa estratégia não era escalável e portanto não servia.

Peculiaridades do nosso negócio

Nesse ponto paramos e decidimos olhar um pouco melhor para as características do negócio que estávamos nos propondo a criar. O Rodrigo Bastos teve essa iniciativa e chegou nas seguintes conclusões:

  1. O negócio de consultoria e facilitação é knowledge-intensive (de conhecimento intensivo). Isso significa que um dos nossos principais ativos como organização vem do aprendizado compartilhado. Felizmente isso é intangível. Ninguém pode ser dono desse tipo de recurso.
  2. Um dos nossos principais ativos é reputação, que também é intangível. Claro que a reputação é construída em torno de uma marca, que pode ser propriedade de alguém. No entanto, isso é contrastado com a reputação individual que os facilitadores constróem com os clientes que prestam serviço.
  3. Em geral, uma pessoa sozinha consegue entregar valor para os nossos clientes. É diferente de um negócio com cadeia de valor longa, como a construção de um carro.
  4. Temos pouquíssimos ativos tangíveis. Não precisamos de escritório, materiais para estoque, licenças caras de software ou de alguma estrutura física. Os poucos recursos tangíveis que temos incluem a marca, os domínios e alguns serviços que utilizamos.

Depois de olhar para isso, ficou muito mais fácil. Foi aí que concebemos a Org-Rede.

Org-Rede

A org-rede é um conjunto de empresas individuais de consultoria e facilitação. Cada membro da Target Teal possui a sua própria empresa e pode prestar serviços em nome da TT ou de outras organizações.

Como uma rede, a Target Teal não possui um CNPJ, conta no banco ou caixa central. Quando prestamos serviços aos clientes, utilizamos uma das empresas individuais dos agentes. No entanto, todos nós nos mostramos como “Target Teal”. Em geral o cliente só descobre que somos uma rede na hora de emitir a nota fiscal e assinar o contrato.

Onde está a “organização”?

Olhando essa estrutura de relance, você pode estar pensando: mas isso é uma rede! Sim, somos uma rede, mas também uma organização. A Target Teal tem diversos ativos tangíveis e intangíveis que necessitam de gestão. Veja aqui alguns desses ativos que são públicos e a nossa estrutura de governança.

Além disso, os membros prestam serviços internos (não remunerados) para fortalecer a org-rede. Por exemplo, estou escrevendo esse post porque faço um papel chamado Content Producer cuja responsabilidade é produzir conteúdos para o blog. Outros serviços internos incluem manutenção do site, newsletter, organização de eventos e design.

Em troca de prestar esses serviços, a Target Teal nos fornece acesso à rede de contatos e aos ativos intangíveis, como conhecimento e reputação. Por exemplo, quando um cliente acessa o nosso site e pede um trabalho pelo formulário de contato, ele entra nessa rede de contatos. Daí usamos alguns critérios internos para distribuir esse cliente para algum dos membros da TT. Todas essas responsabilidades e mecanismos estão descritas em um contrato estabelecido entre todos os agentes da org-rede e na nossa governança.

Essa estrutura atende todos os 3 critérios da nossa lista. Ela possibilita baixa carga tributária, é escalável e permite que todos sejam donos, mesmo que virtualmente.

De quem é a marca?

A Target Teal possui alguns ativos tangíveis, como marca, domínios, contas de e-mail, entre outros. Por a TT não existir legalmente, esses ativos precisam pertencer aos membros da TT (empresas individuais ou pessoas físicas).

O nosso contrato-mãe define que esses ativos adquiridos em nome da Target Teal devem ter a sua propriedade transferida para outros membros caso alguém deixe a org-rede ou seja excluído de uma próxima versão do contrato. Por mais que esteja explícito, reconheço que esse mecanismo ainda é frágil e precisa ser melhor definido.

Quem paga pelos serviços contratados?

A org-rede possui um caixa virtual denominado fundo distribuído. Esse caixa “acumula” 1% das receitas das empresas individuais em nome da Target Teal. Então se eu vendo um serviço de consultoria em nome da Target Teal e faturo R$ 15.000, uma parcela equivalente a R$ 150 será devida ao fundo. Só que eu não transfiro esse dinheiro para uma conta. Apenas significa que estou devendo esse valor para a TT.

Qualquer membro da Target Teal pode fazer uma proposta para gastar/investir o valor que está no fundo em algo que beneficie a org-rede como um todo. Então os agentes que estiverem devendo mais para a org-rede irão efetuar o pagamento desse serviço/produto, não importando se foi a própria pessoa que fez a proposta ou não.

Riscos da Org-Rede

Esse modelo, como qualquer outro, é suscetível a riscos. Existe a possibilidade de algum agente mal intencionado que tem posse de algum ativo tangível crítico (como o nosso website) sabotar a org-rede como um todo. Apesar de termos o contrato-mãe que especifica algumas restrições e deveres, não existe 100% de garantia. Ainda assim, acreditamos que os riscos são menores do que ter uma LTDA com diversos sócios.

Limitações

O modelo atual da org-rede aplica-se apenas a negócios intensivos em conhecimento e com cadeia de valor curta. Atualmente essas restrições não são um problema para nós, mas podem ser para você caso decida implementar um modelo semelhante.

Próximos Passos

A org-rede ainda vai passar por muitas mudanças. Nas próximas versões pretendemos fazer algumas alterações, como por exemplo trocar o nosso sistema de gestão e governança interno de Holacracia v4.1 para o O2. Também cogitamos elevar o percentual de contribuição do fundo distribuído (que hoje é 1%) para que seja possível contratarmos pessoas externas para prestar serviços que hoje temos carência, como design.

Já pensou em implementar um modelo parecido na sua organização? Ou talvez começar uma nova org-rede? Podemos ajudar você nisso.

Por | 2017-10-02T14:37:31+00:00 agosto 23, 2017|Autogestão, Organizações Responsivas|0 Comentários

Sobre o Autor:

Davi é um transformador de organizações, hacker cultural e mestre TAO da Produtividade. Não satisfeito com as mudanças realizadas em times de desenvolvimento de software como Agile Coach, resolveu abordar um problema organizacional mais profundo: a forma com que nos organizamos e distribuímos poder dentro de uma empresa. É amante dos temas desenvolvimento organizacional, produtividade, futuro do trabalho, organizações evolutivas e cultura. Davi também é fundador da comunidade brasileira de Holacracia e pioneiro na implantação do modelo no Brasil.

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